quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Chat(eação)

Eu orkuto
Tu twittas
Ele bloga

Nós skypeamos
Vós myspaceás
Eles chat(eiam)

Seguem achando que se comunicam
Sem olho-no-olho
Sem tom e sem voz

Numa anti-intimidade confusamente pós-moderna
E estranhamente desumana.

domingo, 9 de agosto de 2009

Entre limões e sonhos


Encontrei Tia Lúcia na rua ontem.

-Oi, filhinha, tudo bem?
-Tudo, tia, e as meninas, vão bem?
-Tudo ótimo, cada uma num canto do mundo, aquela coisa.
-E o tio?
-Tá bem, aposentado, seguimos firmes, unidos.

Antes que eu pudesse emendar algum outro assunto, ela veio com a história de sempre.

-Não posso te ver que me lembro de você pequenininha lá em casa, contando uma piada atrás da outra, o centro das atenções.
-Sempre fui aparecida, né?
-Todas as meninas iam cheias de lacinho no cabelo, mil balangandãs e você com um shortinho, um tenizinho e uma camisetinha sem manga.

Tia Lúcia é uma mulher fina, sempre foi. Não mencionou que meu cabelo era uma ode ao Jackson Five e nem que meu shortinho era herança dos irmãos mais velhos.

-Bons tempos, né, minha queridinha...

Concordei por concordar, mas acho que eram mesmo.

Foi com Tia Lúcia que aprendi a gostar dos domingos, pois ela fazia questão de me incluir nos programas culturais infantis da família, sempre encerrados com sonho de doce-de-leite na padaria da esquina de casa.

Como uma lembrança puxa a outra, me veio a imagem de mamãe agora.

-Polianinha, querida, larga esse limão!
-Eu gosto dele, ele é meu amigo.
-Sim, filhinha, mas você já chupou ele todo, dá pra mamãe jogar fora, dá?

Passei a infância assim.

Engraçado que, de certo modo, continuo a mesma:

Uma cabeluda aparecida, entre limões e sonhos.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Superfície

Estar no páreo sem saber exatamente do quê

Ter medo da própria coragem

Colocar colete salva-vida em terra firme

Andar descalço em mármore de Carrara

Usar mertiolate indolor

Preferir o certo ao duvidoso

Trepar apenas com a buceta

Desviar do assunto

Querer sem vontade

Tomar chamagne só porque é chic

Ser feliz em tese

Como vitórias-régias que nem se percebem invejosas de tudo que é profundo

E que nunca saem pra pescar sutilezas

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Coisas de Clarice

Trechos de 'Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres', de Clarice Lispector


Uma das coisas que aprendi é que se deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita foi a criadora de minha própria vida. Foi apesar de que parei na rua e fiquei olhando para você enquanto você esperava um táxi. E desde logo desejando você, esse teu corpo que nem sequer é bonito, mas é o corpo que eu quero. Mas quero inteiro, com a alma também. Por isso, não faz mal que você não venha, esperarei quanto tempo for preciso.

Nós ainda somos moços, podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro.

Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada.

Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível.

Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa.

Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer "pelo menos não fui tolo" e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Não, não quero ser feliz. Prefiro a mediocridade. Ah, milhares de pessoas não têm coragem de pelo menos prolongar-se um pouco mais nessa coisa desconhecida que é sentir-se feliz e preferem a mediocridade.

Você precisa andar de cabeça levantada, você tem que sofrer porque você é diferente dos outros.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Impressões

Assistir a uma sessão de curtas falando sobre a longa dor que é viver

Aceitar que cinema é coisa de maluco que vive a se alongar na tentativa de encurtar a dor

Ou de dividi-la em vinte e quatro quadros por segundo

Pra ver se imprime uma marca no mundo

Que não seja a da maldade

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Só

Quem dera a segunda pudesse contar ao domingo o quão gentil sábado havia sido com ela

Impossível

Domingo estava bêbado como uma porta

Esperando há horas pela solidão

Que chega só na quarta feira

sábado, 1 de agosto de 2009

Sábado à tarde

Atender interfone ofegante

Assumir o controle sem piloto automático

Usar renda preta como arma branca

Ajoelhar sem rezar

Endurecer pau com a boca

Apanhar sem reclamar

Degustar o próprio mel lambuzado na língua que lhe beija

Suar pelo tampo da cabeça

Inventar desculpas lânguidas pros hematomas

Comprar permanganato

Arrepiar-se só de lembrar

Como uma gueixa pós-moderna

Que bebe na fonte da saudade do que ainda nem viu

E acaba, inevitavelmente, molhada.