domingo, 6 de setembro de 2009

Coisas de Antônio Torres

Trechos de “Um cão uivando para a Lua” (1972), romance de estreia de Antônio Torres

-Diz que você me ama, nem que seja mentira. Dizzz. Eu preciso ouvir isso. Preciso, preciso. Diz, diz. Você me ama? Você me ama? Ai. Vou morrer. Eu morro. Mor-ro. Diz de novo, nem que seja mentira.
-Você é completamente louca, mulher. Você me mata. Mas vou morrer feliz. Juro.
E tudo recomeçava
-Você me ama? Diz, nem que seja mentira. Diz de novo. Isso-é-tão-bom...
Caí para um lado da cama e a mulher começou a chorar.
Acordei.
Lila, Lila, Lila! Onde está você?

Acendo a luz e fico sentado na cama. O meu quarto tem uma mesa cheia de remédios, papéis rabiscados, alguns livros, papéis em branco e muitos envelopes. Estou todo molhado. Que horas serão? Bom, e que importância tem isso? Estou passando pelo tempo, estou sendo devorado pelo tempo. Pego uma toalha e me enxugo. É dezembro, parece. As ruas estão mais barulhentas do que nunca. E eu no mesmo lugar.

Chego em 1971 com 28 anos de idade e um nó na garganta.

Ainda assim prometo cavar no fundo da minha angústia alguma sobra de energia, não de todo estragada, para empregá-la até a última gota nas possibilidades de amanhã. Sei. Tudo isso é muito desagradável. É duro demais você assumir a sua própria dor.

Enquanto o sono não vem, escrevo uma carta pra Lila.
Crioula.
Já recebi uma tonelada de propostas. Uma de um velho amigo que acaba de chegar da Europa e me propôs ver os slides que ele fez. Garantiu-me ter batido umas fotos incríveis. Oferta extra: Jantar e uísque ou vinho, à minha escolha. Outra, foi de um sujeito que quer porque quer me mostrar um filme que ele fez com as crianças na praia. Um terceiro quase me mata porque eu recusei um convite para dar umas voltas em seu Opala, pelo Minhocão. Achou um absurdo um cara vindo do Rio não querer ver São Paulo by night. Não posso enumerar tudo. A memória não está ajudando.

Nos povoados, nas cidadezinhas, onde quer que houvesse uma casa, havia sempre um número incrível de crianças. Eu perguntava a idade de uma, ela fazia um gesto negativo com a cabeça. Não sabia. Então o pai, ou a mãe, respondia: 10, ou 11, ou 12 ou 9. Todas pareciam, porém, ter metade da idade que tinham. Era doloroso ver todos aqueles meninos barrigudos e com o tamanho do corpo inteiramente desproporcional ao tamanho da cabeça. Mas não era apenas neles que eu estava pensando. Isso também era outra coisa que eu já tinha visto antes, no Sertão, no Junco.

Eu já tinha sido um daqueles meninos, eu era a soma deles todos.

O dia que eu contei a Lila sobre o menino que eu fui, ela se ajoelhou a meus pés e beijou meu pau. Foi uma dose forte demais. Lila, quando menina, teve uma educação. Como se apresentar. Como andar. Como sentar à mesa. Como cumprimentar. Como dormir, como acordar. Tudo isso para debutar no Country Club. Tudo isso porque ela era uma moça de família, até, é claro, quando descobriu que trepar era o melhor de tudo e o resto não tinha a menor importância. Eu não sei falar de Lila usando palavras normais do vocabulário educado, porque Lila é uma tremenda puta, porque é putamente sensível, inteligente e louca. Naquela noite, em que ela, com reverência (quase digo com contrição), se ajoelhou para me prestar aquela homenagem pagã, eu descobri ter afinal encontrado alguém que chegara ao exagero de me elevar à categoria de herói. Pura e simplesmente pela simples condição de ainda estar vivo – e sendo capaz de funcionar.

Agora eu compreendia o significado de tudo.

Mais tarde, voltei a pensar em Lila e me perguntei até que ponto ela estava compreendendo a extensão de minhas dificuldades, chegando a temer que ela qualquer dia desses se cansasse de tantos trancos e barrancos. Eu já tinha vivido tempo suficiente para ter descoberto que as mulheres, de modo geral, procuram fugir de homens negativos, aqueles que estão sempre a braços com encrencas pessoais e demasiadas encucações, sem considerarem as causas e circunstâncias que os arrastam para baixo. Vislumbrei essa possibilidade como se estivesse avistando um terremoto. Sim, eu a amava. Não queria perdê-la.

Minha memória é uma cova funda onde enterrei todos os meus mortos.
Minha cabeça é uma montanha esburacada, por onde escoam todos os detritos do mundo.
Meu coração não bate, apanha.
E os meus pés estão sempre tropeçando.
Pára, pensamento, pára. Um instantinho só, por favor. Preciso esquecer.
O quê? Tudo
Chega de sofrimento, quero o alento.
É a memória – e não a dor – que faz você se lembrar de centenas de ruas selvagens e ermas.
Li isso em “Luz de Agosto”, mas já faz muito tempo.
Cite um absurdo.
O brado retumbante.
Outro.
Um homem rastejante.
Mais outro.
O céu da pátria nesse instante.
Cite o pior de todos.
A morte.
Diga qualquer coisa.
A paz a gente só encontra na morte ou quem morre acaba?

-Quem está aí com você?
-Ninguém
-Mas você está falando com alguém.
-Sim. Comigo mesmo. Posso?
-Está falando sozinho, então?
-Conforme o costume. Posso?
-Acho melhor você vir atender o telefone. É melhor do que ficar aí falando sozinho.
-Obrigado, já vou.

Sim, eu fazia uma porção de coisas, desde pequeno, mas a impressão que me deixavam era a de que não sabia fazer nada. Então, menino ainda, passei a declamar Castro Alves em praça pública, em dia de festa de escola e o povo dizia: -Menino danado. Foi assim, doutor, que descobri que queria ser jornalista. Eu sabia o que os outros não sabiam. A partir da descoberta disso, passei a ser perdoado por não ser bom no cabo da enxada. Entende? O senhor está entendendo agora?
-Amanhã você me conta o resto - disse ele. - Preciso sair.
E foi embora.
Fiquei andando pelo pátio, sozinho, sem pensar no que diria a seguir, nem no que tinha que fazer.
Eu leio os jornais todos os dias, meu chapa, e já não me inquieto com isso. Vejo as coisas e não sinto mais vontade de vomitar. Eles falam, eu escuto. Pra mim, chega. Acho que não vale a pena espernear.

No céu, algumas estrelas brilhavam e eu achei que o negócio era comigo. Um cão, que passara o tempo todo gemendo para a Lua, agora sorria.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Muita calma nessa hora!

-Menina, meu Santo Antônio caiu sozinho do altar...
-Não!
-Não sei que tipo de sinal o Além está me enviando, mas não me parece boa coisa...
-Muita calma nessa hora!
-Pra piorar, outro dia a faxineira aqui de casa deu um varridão no meu pé que cheguei a sentir a piaçava invadindo a cutícula, sabe assim?
-Sei...
-Fudeu, amiga, num vou casar mais é nunca!
-...
-Diz alguma coisa, pelamordedeus!
-Lógico!
-O quê é lógico?
-Como não pensei nisso antes?
-Nisso o quê?
-É um sinal mesmo, gata!
-Do quê?
-De que esse moço com quem você tá entusiasmada, o pesquisador de conteúdos, não é o cara!
-Mas isso lá é motivo pro Santo dar um mosh?
-Olha a blasfêmia! Vê lá se Santo dá mosh!
-Tá, desculpa, é que tô nervosa com isso...
-Eu sei, amiga, mas me conta do Santo: ele tá destroçado?
-Não, deu uma rachadinha só no braçinho do menino Jesus.
-Ahhhhhhhhhhhhhhhh.
-Fala!
-Só o menino Jesus que rachou?
-Só.
-Então tá explicado!
-Num tô entendendo nada.
-Fica fria, se foi só o menino Jesus que deu uma raladinha com o tombo, talvez tenha sido apenas um aviso pra você se cuidar pra não engravidar do pesquisador de conteúdos, já que ele não é o cara...
-Mas nós usamos camisinha.
-Ótimo.
-E eu sou super certinha, alio camisinha e tabelinha.
-Se você acha suficiente...
-Em 39 anos nunca engravidei, acho que tá bom, né?
-É um bom parâmetro.

Ficaram ali cotando o pesquisador de conteúdos, fazendo listas de prós e contras, como se o problema realmente estivesse com ele, ou com Santo Antônio, ou com a vassoura de piaçava.

Uma hora iam entender que o Além não manda recado por Santo nenhum e que as coisas boas da vida acontecem justamente quando a gente nem tá esperando por elas, já que, como reza o dito popular, o que é nosso está guardado.

A sete chaves.

Pra ser aberto só quando estivermos prontos.

Porque ser feliz também dá trabalho.

sábado, 29 de agosto de 2009

Quilometragens

-Ai, amiga, tô sofrendo...
-Quer que eu desça pra comprar leite condensado?
-Quê isso?!
-Tô só querendo ajudar...
-Ai, por que os homens bons moram longe?
-Porque no dia que começarem a divulgar que Rio de Janeiro é cidade maravilhosa só pra turista o terceiro mundo vai explodir!
-Hahahahahahaha! E quem tiver de sapato não sobra!
-Não pode sobrar!
-Eu tenho várias amigas que só trabalham com produto estrangeiro.
-Complicado é o imposto...
-Hoje em dia importar não é tão difícil.
-Parece até que a gente tá falando de economia!
-Não deixa de ser uma análise do produto interno bruto...
-Hahahahahahaha!
-Mas, fora de brincadeira, eu meio que vivo repetindo esse padrão de homens de fora, né?
-Vive sim, mas às vezes eu fico achando que você tá melhor que muita gente que mora a vinte minutos da casa do namorado.
-Besta!
-Tô falando sério, não é só pra te consolar, não.
-Sei...
-O Alexei é um cara mais presente na sua vida do que imagina sua vã filosofia...
-Queria estar com ele agora e não posso, você acha que isso é fácil?
-Não, não é.
-Só pra te dar uma idéia: quantas vezes você me viu chorar na vida?
-Umas três.
-Pois então, hoje voltando do aeroporto foi a quarta.
-Cara, vou fazer um brigadeiro pra você!

Enquanto misturavam o leite condensado no chocolate em pó, Alexei ligou pra dizer que tinha chegado bem em Frankfurt e que tinha deixado uma surpresa embaixo da cama.

Como criança no natal, destroçou o embrulho e não acreditou quando viu o filhotinho de labrador com um bilhete escrito “cuida de mim” amarrado no pescoço.

A amiga, que já sabia de tudo, abriu um sorriso de quem acabou de fazer limpeza de tártaro e terminou de fazer o brigadeiro.

Porque, em se tratando de amor sincero, quilômetros não são a melhor forma de medir distâncias.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Ecologia às avessas

-Fui deixar um scrap pra você e num te achei...
-Saí do orkut, amiga.
-Quê isso, gata?
-Do facebook também.
-Jura? Logo você, a mais conectada. Aliás, pensando bem, nunca mais te vi no msn, achei até que você tinha me bloqueado...
-Hahahahahahaha! É que tenho entrado pouco mesmo.
-Menina, tô bege!
-Além do mais, bloquear alguém é caído, vai...
-Olha, eu já pensei assim, mas hoje em dia acho que existem situações e situações. Se a comunicação online não tá legal, pra quê insistir?
-Entendi, mas fica fria que não te bloqueei nada, viu? É que, sei lá, eu tava ficando meio improdutiva, meio noiada e o que é pior, meio gordinha.
-Você não tá gorda nada...
-Não tô, fato, mas também não paro mais o trânsito, como nos meus tempos de bailarina...
-Ah, amiga, naquela época você era virgem, tem saudade disso também?
-Nãããããooooooo!
-Ah, bem!
-Mas, voltando aos internetismos, nem tudo está perdido, continuo postando no fotolog.
-Aliás, vi a foto do por-do-sol, lindíssima por sinal. Amiga, você só se supera...
-Tirei na quarta.
-Foi à praia no meio da semana, é?
-Pois é, menina, comprei uma bike e agora, sempre que dá uma brecha, dou um pulo em Ipanema. Ontem, com aquele calor, dei até uma nadadinha, acredita?
-Agora eu fiquei pretérita!
-Perdi dois quilos já.
-Arrasou no recreio!
-Num é?
-Mas você vai de capacete, né?
-Igual a Lu Patinadora: Lá - Lé - Li - Ló - Lu Patinadora! Lembra disso?
-Hahahahahahaha! Claro que lembro! Mas, olha, não fica falando essas coisas por aí não, que esse tipo de piadinha denuncia a idade, bela.
-Tudo certo com minha idade, baby, foda mesmo vai ser quando a bunda começar a cair.
-Vaca!
-Já fui muito rabuda, sabe assim? E as vantagens de um rabão são incríveis...
-Você não existe!
-Mas uma hora a gente precisa se desapegar desses valores, né? A gravidade e a morte são as únicas certezas da vida.
-Hahahahahahaha!
-Mas num é?
-Aqui, me diga: como é que vai ser ficar sem ver o que as pessoas postam, sem saber o que tá acontecendo? Você vai ficar desatualizada, baby!
-Vou dar de démodé, então, tá bom pra você?
-Daqui a pouco tá sem celular...
-Deixa de ser dramática, nega!
-Vai meditar e parar de comer carne também?
-Meditar é maravilhoso, você devia experimentar, ao invés de falar sem saber...
-Tá, mas e hoje, qual vai ser?
-Tenho uma conferência no skype até umas onze, depois tô liberada. Te mando uma mensagem assim que acabar, pode ser?

É claro que podia ser.

Porque coisas de verdade são à prova de tecnologia.

E, numa espécie de ecologia às avessas, não-biodegradáveis.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dicas práticas pra não achar que o gatinho está a fim de você quando ele só quer ser seu brother

Como sabiamente canta Zeca Baleiro, o maior desejo da boca é o beijo. Daí, por conta disso, vez por outra, meninas tomam como gatinhos em potencial moços que até têm tesão nelas e adoram estar por perto, mas, definitivamente, as veem como brothers. A partir disso, é criada uma pseudo-relação, pseudo no sentido da falta de confluência e fluidez, mesmo quando ambas as partes julgam ter sido claras sobre as intenções que as movem. Acontece. Se enganar faz parte da vida. Enganos, inclusive, podem ser nossos amigos. Com o tempo, se bem aproveitados, passam a compor uma espécie de anti-cartilha do cotidiano.

Assim sendo, segue mais uma lista de dicas práticas para evitar que vocês, meninas, gastem energia com o que não flui, e para que vocês, meninos, fiquem mais atentos às feminices.

Capítulo primeiro: do standby

-Vocês vão sair de novo finalmente?
-Parece que sim.
-Como assim, parece?
-É que não marcamos exatamente.
-Tão em dúvida de onde ir?
-Não, já escolhemos um local.
-Sei...
-É que ele me deixou em standby, disse que é melhor marcar só no dia mesmo, que daí não rola de termos de desmarcar, caso ele não consiga se desvencilhar do trampo e tal.
-Porra, amiga, standby é coisa pra aparelho de dvd!
-É que a vida dele é uma loucura, não tem horário pra nada. Pra você ter uma ideia, tem dias que ele sai de casa às quatro da manhã porque precisa filmar o sol nascendo, acredita?
-Há quanto tempo você tá em standby, nega?
-Há algumas semanas.
-Já reparou que se você deixar o dvd parado por mais de meia hora ele desarma?
-Que analogia besta, amiga...
-Não é não! Uma coisa é deixar um encontro pré-combinado, tipo “vamos se ver na sexta, mas te dou aquela ligadinha confirmando no dia”. Isso é mostrar interesse e consideração pela dama, sem deixar de levar em conta os imprevistos da vida. Outra coisa é deixar pra te convidar só no dia, como se você estivesse à disposição full time.
-...
-De repente ele te vê como brother.
-Será?
-Acho que sim.
-Pensando bem, isso rola direto entre nós duas e é mó normal, né?
-Sim, nós podemos nos deixar em standby, temos anos de brodagem nas costas!
-Mas isso rolar com o gatinho é caído, né?
-Eu não acho bacana, mas se você não se importa, tranquilo também...

Dica prática: se o moço não consegue te encaixar na agenda dele, talvez seja a hora de sair do standby e dar play em aparelhos outros. Ou de outros, você é quem sabe. Só não vale é se acomodar, que isso não é posição digna pruma gatinha.

Capítulo segundo: das “amigas”

-Você não vai acreditar.
-Ai, Jesus, fala.
-Ontem encontrei de novo com o tal carinha que te falei, lembra?
-O que você ficou anteontem?
-Esse mesmo.
-Sim e aí?
-E aí que ele não olhava direito na minha cara, sabe assim “sou muito tímido”?
-Mas pra dormir junto pelado não teve timidez, né?
-Nenhuma.
-Ai, que preguiça...
-Espera que tem mais.
-Aff...
-Chegou uma amiga minha e simplesmente se pendurou no pescoço dele, tipo cachecol, sabe assim?
-Você tem umas amigas também, hein, vou te contar!
-Foda!
-Mas ele ficou com ela na sua frente?
-Não, mas a sensação que eu tive era de que teria rolado se eu não estivesse por ali, sabe assim?
-Sei.
-Incrível esse tipo de situação, né?
-É, baby, de repente ele te vê como brother.
-Será?
-Brother é assim: fica contigo, com sua amiga, com sua irmã, tudo na mesma semana, esquema procriação em cativeiro.
-Hahahahahahahaha! Só você pra me fazer rir, amiga.
-Tem que rir, filha, e, da próxima vez que encontrá-lo, dá um jeito de cantar no ouvidinho dele assim: “Take it easy my brother Charlie, take it easy meu irmão de cor, ê, ô”.
-Hahahahahahaha! E ele é negão!
-Do olho verde, tô ligada, esse é o tipo de informação que não esqueço, gata.

Dica prática: se ficou com o gatinho e teve uma noite excelente de miscigenação, fique atenta à atitude dele com suas amigas quando encontrá-lo novamente. Se a simpatia e a permissividade forem excessivas, ligue seu detector para brothers e dê um jeito de receber um telefonema urgente requisitando sua retirada imediata do local, pois situações como essa não precisam de cenas do próximo capitulo.

Capítulo terceiro: da necessidade de mencionar outra mulher que não a mãe, a irmã ou a tia-avó numa conversa

-E aí, foi legal o encontro?
-Foi sim, ele é figura.
-Legal!
-É...
-É o quê?
-É legal porque o silêncio não incomoda, sabe assim?
-Sei, isso é bem gostoso.
-É sim.
-Mas e a química prática? Funcionou?
-Ele é bem suave.
-Você curte, né?
-Sim.
-Tá, mas o que se passa, então, filha?
-Nada.
-Conheço essa sua carinha de ponto de interrogação.
-Boba...
-Anda!
-Ah, nem é nada de mais, mas de vez em quando, não sempre, ele fala de outras mulheres, sabe?
-Hummm.
-E eu não consigo meter um: “Ah, é? Poxa, que legal!”.
-Nem é o caso, o ideal é mudar de assunto, não?
-É, mas sei lá, não curto.
-Nenhuma mulher curte. Fato.
-Será? Acho que tem mulher que não liga.
-Que não liga não existe. Existe mulher que entende isso como insegurança de macho e simplesmente desapega.
-Mas por que você acha que é insegurança?
-Não sei se é insegurança exatamente a palavra, mas é uma coisa tipo “tá vendo como sou desejado?”
-Ah, não, não posso acreditar nisso!
-Você pode até não acreditar, cada um acredita no que prefere, né não?
-Besta!
-Quer ver uma coisa? Você fala de outros caras pra ele?
-Lógico que não!
-Tá vendo? E por que você não fala?
-Porque não acho que isso seja assunto.
-E por que você acha que isso não é assunto?
-Porque não preciso me explanar pra ele, essas coisas eu deixo pra falar contigo, que com a gente rola brodagem pra isso.
-De repente ele te vê como brother.
-Será?
-Acho que sim.
-Cara, ele não tira o olho dos meus peitos.
-Querida, seus peitos são fenomenais, nem seu terapeuta deve tirar o olho deles.
-Minha terapeuta é mulher e você sabe disso, sua louca!
-Tá, mas você entendeu a semântica, né?
-Sim, sim, mas é que ele parece tão interessado...
-Em ser teu brother!
-É, né?
-É, flor, deixa quieto, que essas paradas tão rolando direto, são os ardis da pós-modernidade.
-Sempre ela...

Dica prática: se está conhecendo um moço, fique atenta à frequência com que ele cita outras mulheres no meio dos papos de vocês, porque isso, mesmo numa história com química sexual e intelectual interessantes, é sinal de que ele quer te comer e, ao mesmo tempo, ser teu brother. Se pra você isso é satisfatório, tanto melhor, mas, se você não sai bem nessa foto, não insista, porque essas coisas não costumam mudar.

Capítulo quarto: da confusão entre saudade e vício

-Menina, hoje me deu uma saudade do figura...
-Não é saudade, filha, é vício.
-Será?
-Óbvio, eu morro de saudade do meu maço de Marlboro.
-Falando nisso, hoje fazem três dias que eu não fumo.
-Mas você num foi numa festa ontem?
-Fui.
-Bebeu?
-Todas.
-E não fumou?
-Não.
-Nem varejo?
-Não.
-Nem traguinho amigo?
-Não.
-Tá explicado!
-O quê?
-A saudade do figura!
-Como?
-Natural, neguinha, você se privou de um vício, daí se lembrou de outro.
-Será?
-Claro, gata.
-Estranho isso, né?
-Estranho nada, a gente se acostuma com as pessoas, acontece. E acontece também de num belo dia você se olhar no espelho e pensar: “poxa, acho que de repente esse figura me vê como brother”.
-Foi meio isso mesmo que rolou.

Dica prática: se conseguiu vislumbrar que determinado moço te vê como brother e que, ainda assim, você meio que se acostumou com ele, pois ele é um querido e coisa e tal, aceite a situação, mude o foco e siga em frente numa boa, lembrando sempre que com homem é que nem com cigarro: as primeiras setenta e duas horas de abstinência são as piores. Depois a tendência é melhorar.

Afinal de contas, é prudente tentar enxergar o limite antes de se deparar de cara com ele.

Porque o mais importante é sermos brothers de nós mesmos.

Pra desenvolver a incrível habilidade de aceitar a vida do jeitinho que ela é: complicada e perfeitinha.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Bobagem (parte 2)

Buscar na satisfação pura e simples pela mais sublime felicidade é desacreditar no poder do fim do túnel

É colocar em xeque o ponto de mutação

É coisa pra se fazer somente de porre

Mas nunca na frente do espelho

sábado, 15 de agosto de 2009

Dia e noite

-Hoje é dia dos solteiros.
-E de Nossa Senhora da Glória!
-E o que Nossa senhora da Glória fez?
-Ela é mãe de Jesus.
-Peraí, mas a mãe de Jesus não é Maria?
-Até onde eu sei, que fui só até o catecismo, Nossa Senhora é uma só, mas, como ela apareceu em vários lugares, tem vários nomes: Nossa Senhora de Lourdes apareceu em Lourdes, Nossa Senhora de Fátima apareceu em Fátima e por aí vai.
-Faz sentido então, porque Maria foi mãe solteira.
-Olha a blasfêmia! Ela era casada com José, não era solteira, era virgem!
-Ah, desculpa, achei que seria uma boa analogia.
-Não foi não, com essas coisas não se brinca!
-Tá, quer dizer então que hoje tem festa no Outeiro da Glória?
-Festança!
-Deve estar cheio de solteiro por lá!
-Hahahahahahahahaha!
-Ah, cara, já me ligaram várias amigas arrasadas, falando que dia de solteiro não se comemora, que é uma data pra colocar o rabo entre as pernas e se lamentar, mas eu acho isso uma falácia.
-Falácia não sei, mas que um falo caía bem, ah, caía.
-Podre você!
-Pensa comigo: todo casado já foi solteiro um dia, o que significa que os solteiros são casados em potencial, como larvas que um dia serão borboletas.
-Ainda tem mais: muito solteiro de hoje já foi casado um dia, o que significa que, de forma cruel mas verdadeira, alguns casados também são solteiros em potencial...
-Mas esse pensamento é destrutivo, porque as pessoas se casam pensando que vai ser pra sempre.
-Será mesmo?
-Acho que sim, amiga.
-Do jeito que tá tudo tão descartável...
-Existem casos e casos, não se pode generalizar.
-O fato é que, quanto mais entre as pernas estiver o rabo, menos erguida se está a cabeça. E, segundo minha mãe, quem muito se abaixa alguma coisa aparece.
-Boa!

Continuaram transitando pelo óbvio, como quem dá voltas em torno do próprio rabo.

Felizes por serem solteiras mas não solitárias.

Por terem dias de sol, chopp gelado, festas soul e motéis com banheira de hidromassagem.

Pois, se o dia é dos solteiros, nada impede que a noite seja de glória.