sábado, 11 de dezembro de 2010

Charlotte sometimes mode on


Escultura no mar

Medo de fachada

Sala sem estar

Anunciada cilada

Morpheu is dreaming

Where all other people dance

Dali é viking

Onde há quem pense

Que o porto inseguro

Perdeu-se em manobras

Como cego

Surdo

E mudo

Na dieta das sobras


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Cross living (pro Caneta, lente e pincel)


Não era câncer nem Aids nem gastrite nem gonorréia. Também não parecia síndrome do pânico, esquizofrenia, espinhela caída ou coisa que o valha. Aconteceu com Anita o que poderia ter acontecido com qualquer mulher contemporânea: o fracasso havia lhe subido à cabeça. De uma só tacada, tinha perdido o carro, o dinheiro da poupança, o pseudonamorado, a dignidade e a vontade de levantar, sacudir a poeira e dar a volta por cima. Estava ali, em plena segunda, bebendo sozinha num boteco de quinta, tentando viciar os dados de seu destino pra ver se alguma coisa mudava, mas esse negócio de depois da tempestade vem a bonança é coisa de quem usa facebook demais e perdeu a noção de que realidade só se cura com champagne.

O fato é que tinha acabado de perceber que, apesar dos pesares, vida não é um veículo do qual se dê pra descer antes do ponto. Quer dizer, tem gente até que desce, mas aí é outra história, afinal, uma moça como ela, criada pra ser feliz de doer e crescida em meio a doses cavalares de amor materno, não tinha o direito de desistir àquela altura do campeonato. Seria uma atitude tola, algo como perder a chance de se certificar de que a esperança é a última que dorme num país de insones. Assim, seguiu em frente, na busca por algo que lhe anestesiasse.

Qual não foi sua surpresa quando se pegou na fila do cinema. Tinha tanto tempo que não entrava numa sala escura que não fosse o quartinho fedorento da boate que seu ex-pseudonamorado adorava frequentar, que chegou a sentir uma pontinha de vertigem. A propósito, sim, o rapaz gostava de ambientes de sexualidade indefinida. Gostava também de se vestir de mulher de vez em quando, mas hoje em dia isso nem chega a ser uma questão, posto que é tendência, como quase tudo que era estranho há dez anos. Ficou pensando se sua tristeza um dia também viraria tendência e se as pessoas se esqueceriam completamente de como é o cheiro da felicidade, mas, decidiu, ao invés de tanta divagação, comprar uma pipoca para parecer normal. Sentou-se na quinta fila, que é onde costumava ficar quando era menina e sua irmã, pacientemente e a meia-voz, lia-lhe as legendas que passavam rápido demais para sua tenra idade. O filme era meramente um detalhe. O que estava em jogo ali era a busca. Até mesmo porque, quem não sabe o que procura, não percebe quando acha.

Acabada a sessão, foi dar uma volta no shopping. Tinha certeza de que compraria tudo que visse pela frente, afinal, a chateação havia lhe roubado uns quilos e era a hora exata de tentar entrar naquela calça quarenta que desejava desde que saiu da puberdade. Mas alguma coisa lhe distraiu na vitrine da frente: era um bloco de notas simples, de capa dura, recheado de páginas em branco. Sentiu um calafrio na espinha e percebeu que as palavras seriam as únicas capazes de lhe tirar da desconfortável posição de vítima dos fatos e das pessoas. Não deu outra. Vomitou toda a disenteria emocional que lhe acometia. Dez horas e três blocos depois, era uma outra pessoa, tanto que já podia olhar para trás sem torcicolo e para frente sem fotofobia.

Tinha se curado, ou melhor, tinha feito uma faxina colossal debaixo do tapete de sua alma.

Porque letra guardada é que nem cabelo: precisa de vento para poder voar.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Primeira pedra


Quem vai chorar sobre a seda rasgada?

Parir a lenda encruada?

Inflar o ego esvaziado?

Quem vai dizer que é tudo cena?

E que é digno de pena

O dono de um coração fechado?

Nem o estupefato

Que mora em mim

É tão sensato assim

Mas se por acaso

(e nunca por inteiro)

Perdesse o freio

E esquecesse do sim

Ganharia inimigos alheios

Vitórias sem beijos

E uma guerra morna

Sem fim

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Parciais


Um diz que não quer mais

Outro quebra a cerâmica

Um dá por amizade

Outro aborta temperança

Cartesiana a dinâmica

Do placar um a um:

Melhor algum jogo

Que jogo algum

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Pra frente é que se ama (pro Drama Diário)


-Ele é bonito?
-Não exatamente.
-Inteligente?
-Muito.
-Mas inteligente inteligente ou inteligente intelectual?
-E tem diferença?
-Muita! O inteligente inteligente pega as coisas no ar, faz associações inusitadas e ainda te presenteia com piadas engraçadas.
-E o inteligente intelectual?
-Costuma também pegar as coisas no ar e fazer associações inusitadas, mas, ao invés de te contar piadas, fica citando Foucault, Kant e às vezes um pouco de Almodovar, só pra passar de popular.
-Pô, mas nem Almodovar pode?
-Pode, claro, tô brincando com você.
-Sei...
-Quando a conta chega na mesa, ele paga de pronto?
-Lógico, né?
-Bonitinha, nada é tão lógico assim que não seja passível de dúvida, mas diga, e o pau, é belo?
-Ah, não, isso é foro íntimo!
-Óbvio que é, mas nós duas sempre falamos dos paus dos homens e isso nunca foi um problema.
-Tsc.
-Fala, filha!
-Tá, mas se você der mole pra ele, eu te mato, ok?
-Combinado, mas e o pau?
-Expressivo e cortado.
-Judeu?
-Não, fimose mesmo.
-O beijo?
-Passível de melhora.
-Língua hiperativa, é?
-Por aí.
-Acontece. E lá embaixo, ele faz com gosto?
-Sim.
-Mas tipo vai e mergulha como se não houvesse amanhã ou dá aquelas lambidinhas paliativas, só pra não dar na pinta de que nem curte o ofício tanto assim?
-Se tivesse uma música pra ser a trilha sonora da devoção do bofe seria Pussy in the sky with diamonds.
-Hahahahahaha! Sensacional!
-Satisfeita?
-Ainda não, quero saber se na hora que ele mete você consegue gozar.
-Não acha que tá querendo saber demais não, bela?
-Tô, mas foda-se, sou ou não sou sua melhor amiga?
-É...
-Goza ou não goza?
-Se eu ficar por cima, na magnífica posição de Cavalgada das Valquírias, sim.
-Que putinha mais wagneriana você...
-Também acho. Algo mais?
-Sim, o mais importante.
-Manda.
-Se você se pegasse grávida, assim, por uma distração, encararia ser mãe de um filho dele?
-Querida, você me conhece o suficiente pra saber que eu não me distraio.
-Eu sei que não, mas, hipoteticamente falando, o que você faria?
-Precisaria pensar, nunca engravidei pra saber como é carregar um coração além do meu.
-Ai, que bonito isso que você disse.
-Achou?
-Lindo, você devia ser romancista.
-E você, psicanalista.
-Posso perguntar só mais uma coisinha?
-Adianta eu dizer que não aguento mais tanta pergunta?
-Não.
-Então desembucha.
-Levaria ele prum coquetel de abertura de um evento da sua produtora?
-Acho que sim.
-Hummm.
-Hummm o quê?
-Deixa.
-Agora vai até o fim, mulha.
-Pra isso precisaria de mais uma pergunta...
-Manda.
-Você admira ele?
-Sei lá, nunca me peguei tão embevecida por um homem a ponto de ficar de quatro.
-É, e todo mundo sabe que de quatro ninguém é normal.
-Hahahahahahahhahahaha.

Pararam por ali, enquanto ainda riam, pois sabiam que esse negócio de admiração era a única coisa capaz de abrir espaço praquele sentimento nobre de quatro letras que tanto tira o sono da maioria dos humanos.

À bem-comida restava a chance de aproveitar os bons momentos, sem nunca esquecer que o novo é chão pra ser pisado devagarinho, de preferência sem olhar muito pra trás, para evitar comparações cruéis.

Até mesmo porque, não só quando engravidamos somos capazes de carregar um coração além do nosso.

sábado, 6 de novembro de 2010

Poupança


Me economizo

Pra poder gastar

Que guardar pros vermes

É que não dá

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Lord save the faith




Se a fé move montanhas

E quem avisa amigo é

Me responda (sem pensar):

Quem é que move a fé?

Tomando por princípio

A lógica do zelo

Se não for o amigo a fazê-lo

A montanha é que não é