- tira daí! não deixa eles avançarem mais! isso! passa a bola! ai meu deus, anda logo! por que o parreira escalou esse rapaz?
a resposta para todas as aflições de jane estava além de sua compreensão de fêmea que somente assiste a partidas de futebol de 4 em 4 anos.
- querida, fica fria, o menino é craque.
- não sei porque você fica defendendo ele. o cara não joga nada! fica ali esperando o lance vir até ele, se achando o tal. queria ver se eu fizesse isso lá no trabalho, se chegasse pra minha gerente e dissesse: ah, deixa a freguesa! na hora que ela decidir o que quer comprar, ela procura uma de nós! ai meu deus! tá impedido! tá impedido!
- não, querida, não está impedido! além do mais, seu trabalho é bem diferente do dele.
- claro que está impedido! não tem ninguém da defesa entre ele e o goleiro! ahá! te peguei! eu sei o que é um impedimento! eu não sabia na copa passada, mas agora eu sei!
- tá bem, você sabe! mas não tem como comparar a responsabilidade que você tem no seu trabalho com a dele, meu bem.
- não tem porque você é homem e homem não entende nada disso. imagina se eu atendo mal uma madame fresca que resolveu levar o poodle com ela? se eu não dou atenção ao animal ou deixo passar alguma idéia de que é absolutamente esquizofrênico - pra não dizer anti-higiênico - levar cachorro no colo pra fazer compras e ficar lambendo o bicho e beijando o bicho e falando que vai dar festa de aniversário pro bicho? é cada doida que entra ali, cada história. você tinha que ver antes de falar isso. viu como tava impedido? eu podia até ser comentarista.
o menino estava mesmo impedido e o marido de jane, ficando irritado. apesar de ser um homem paciente e de amar muito a esposa, quando se tratava de futebol, gostava de dar a última palavra. e a penúltima também. mas, como já tinha tomado várias biritas e estava anestesiado, resolveu adotar uma postura de mentecapto cool. ou de hipotireóidico hype.
- isso! de repente na próxima copa sobra uma vaga lá no sportv.
- então! ótimo! pode deixar que eu também te aviso se sobrar uma vaga de poodle lá na loja!
daí em diante o tempo fechou. parecia a final da copa de 50 quando o uruguai fez o segundo gol e destruiu o sonho do campeonato do mundo brasileiro, que vinha junto com a arquitetura e com toda uma idéia de nação vitoriosa. impressionante como uma conversa sobre futebol pôde desencadear paranóias subterrâneas e canhestras. em 2 meses se separaram. nem ao menos terminaram de ver aquele jogo juntos.
o calor do futebol e a euforia do pra frente brasil fizeram com que esquecessem que tem certas coisas que são indizíveis.
segunda-feira, 10 de março de 2008
a bailarina e o esgrimista
jorge e clotilde se conheceram na faculdade quando ela era a bailarina virgem e ele, o esgrimista pervertido. rapidamente viraram unha e carne. nunca clotilde tinha tido um amigo assim. jorge era truculento mas gostava de vê-la dançar. dizia que tudo parecia mais verdadeiro e feliz e simples quando aquele corpo cheio de reentrâncias e saliências girava em torno de si mesmo desenhando poemas aéreos. ele não se incomodava em parecer tolo. simplesmente babava nela e assumia isso, com toda a sinceridade possível a um esgrimista:
- clotilde é foda! dança com a alma. não fica de frescura.
todo mundo achava que rolava sexo ali, mas clotilde queria o professor de metodologia da dança, um adonis ariano cheio de si, que sabia de tudo mas preferia ficar ali do alto, esperando as bailarinas virgens virem ao seu encontro. já jorge, que não era um adonis mas sabia ser pragmático, queria as meninas que o queriam. isso sem nunca perder a oportunidade de deixar as coisas claras para clotilde, numa sinceridade que beirava o lirismo:
- tudo bem, somos amigos. mas se você me der mole, eu te passo o rodo.
os anos passaram, o professor ariano se casou e clotilde e jorge continuaram próximos. parece que a alegria de jorge situava a melancolia de clotilde num lugar mais ameno. tantas vezes ela ligou pra ele chorando e acabou às gargalhadas, morrendo de rir de si mesma e de quão patéticas podem ser as moças envoltas em suas crises. um dia, numa dessas, entre uma choradinha no ombro e um abraço apertado, rolou um sexo. foi tudo de bom, claro. eles eram curiosos um do outro. na verdade, se deviam uma trepada há tempos.
tudo parecia ir bem, sem muita neurose, mas era só maquiagem. bastava clotilde aparecer com um adonis para jorge pegar na espada:
- é foda. mulher é tudo a mesma porra! falam que querem um cara legal, inteligente e sensível, mas sempre acabam com os gostosões. então pra que esse discurso?
o contrário também acontecia. bastava jorge aparecer com uma gata para clotilde começar a desferir seus comentários ácidos:
- tá vendo? homem é tudo a mesma merda! dizem que querem uma companheira mas na hora h acabam ficando com as loiras do pentelho preto. impressionante!
os amigos em comum percebiam tudo e evitavam fazer comentários. afinal de contas, não havia nada que pudessem fazer a não ser esperar que os dois se dessem conta do que sentiam um pelo outro. depois de 10 anos de convívio, precisavam assumir se a coisa era namoro ou amizade. afinal, clotilde já não era mais a bailarina virgem. nem jorge, o esgrimista pervertido.
e já era tempo de florir. ou de deixar murchar.
- clotilde é foda! dança com a alma. não fica de frescura.
todo mundo achava que rolava sexo ali, mas clotilde queria o professor de metodologia da dança, um adonis ariano cheio de si, que sabia de tudo mas preferia ficar ali do alto, esperando as bailarinas virgens virem ao seu encontro. já jorge, que não era um adonis mas sabia ser pragmático, queria as meninas que o queriam. isso sem nunca perder a oportunidade de deixar as coisas claras para clotilde, numa sinceridade que beirava o lirismo:
- tudo bem, somos amigos. mas se você me der mole, eu te passo o rodo.
os anos passaram, o professor ariano se casou e clotilde e jorge continuaram próximos. parece que a alegria de jorge situava a melancolia de clotilde num lugar mais ameno. tantas vezes ela ligou pra ele chorando e acabou às gargalhadas, morrendo de rir de si mesma e de quão patéticas podem ser as moças envoltas em suas crises. um dia, numa dessas, entre uma choradinha no ombro e um abraço apertado, rolou um sexo. foi tudo de bom, claro. eles eram curiosos um do outro. na verdade, se deviam uma trepada há tempos.
tudo parecia ir bem, sem muita neurose, mas era só maquiagem. bastava clotilde aparecer com um adonis para jorge pegar na espada:
- é foda. mulher é tudo a mesma porra! falam que querem um cara legal, inteligente e sensível, mas sempre acabam com os gostosões. então pra que esse discurso?
o contrário também acontecia. bastava jorge aparecer com uma gata para clotilde começar a desferir seus comentários ácidos:
- tá vendo? homem é tudo a mesma merda! dizem que querem uma companheira mas na hora h acabam ficando com as loiras do pentelho preto. impressionante!
os amigos em comum percebiam tudo e evitavam fazer comentários. afinal de contas, não havia nada que pudessem fazer a não ser esperar que os dois se dessem conta do que sentiam um pelo outro. depois de 10 anos de convívio, precisavam assumir se a coisa era namoro ou amizade. afinal, clotilde já não era mais a bailarina virgem. nem jorge, o esgrimista pervertido.
e já era tempo de florir. ou de deixar murchar.
jiló, cigarro e ressaca moral
francine costuma gostar de tudo. na verdade, existem apenas 3 coisas que não suporta: jiló, cigarro e ressaca moral. a história com o jiló vem desde criança, quando sua mãe pianista, preocupada em proporcionar à filha uma alimentação saudável, dizia:
- jiló está para a culinária assim como debussy está para a música: ambos são amargos, de difícil digestão, mas totalmente indispensáveis.
ainda menina, achava esse papo uma bobagem mas tinha de obedecer às diretrizes maternas. quando finalmente fez 18 anos e teve permissão para parar de comer jiló, se sentiu tão adulta que resolveu comemorar dando uns tragos no cigarro de uma amiga. não deu muito certo porque seu organismo não se adaptava bem ao vício e sempre que fumava ficava enjoada e acabava abraçada ao primeiro vaso sanitário que aparecia pela frente, o que não era legal, principalmente nessa fase da vida em que a única coisa que realmente importa é provar que se sabe fumar, beber, fazer sexo e dar gargalhadas altas. assim, parou com as baforadas e começou a beber. a verdade é que poucas pessoas gostam tanto de sentar num boteco quanto francine. a bebida foi responsável por muitas coisas interessantes em vários momentos de sua vida, desde conhecer pessoas até escrever roteiros de filmes, contos e cartas de amor. foi bebendo que aprendeu a gargalhar de si mesma e, em 90% das vezes, acordava se sentindo ótima, louca para telefonar para as amigas e fofocar sobre os detalhes da noite anterior. porém, nos 10% dos casos restantes, a coisa fazia mal à moça. francine demorou para detectar que a tal da ressaca moral era justamente a triste percepção de ter sido traída pela própria memória e de ter perdido a chance de terminar a noite sem se expor tanto.
o curioso é que para ela os porres nunca foram uma ameaça à sua integridade física: sempre conseguia chegar em casa, nunca quebrou as pernas, nunca tirou a roupa em público, nunca foi estuprada nem assaltada, nunca vomitou no colo de ninguém nem jamais se esqueceu de como se coloca camisinha com a boca. ainda que nada de muito errado tivesse acontecido, acordava por vezes sobressaltada, com a sensação de que tinha feito merda. e essa sensação era mais forte quando se esquecia de conversas inteiras. para disfarçar, fingia que estava tudo bem, rezava pra pessoa também não se lembrar de porra nenhuma, engolia um possível pedido de desculpas junto com o engov e a coca-cola e se isolava no seu casulo, único lugar aonde não sentia medo de si mesma.
francine ainda tinha um agravante: era geminiana. é fato notório que geminiano quando resolve pensar, se tortura. quando resolve parar de pensar, não consegue. e quando acha que conseguiu, sente culpa. a culpa corroía sua alma de tal forma que resolveu dar um basta nessa situação. não sabia exatamente o que tinha de fazer. só sabia que precisava quebrar esse paradigma, mesmo que ainda lhe faltassem as ferramentas. foi pra cozinha, pegou a faca mais afiada e cortou umas 3 cebolas. as lágrimas, a princípio fisiológicas, foram aos poucos caindo sentidas. foi quando francine se deu conta de que não era a birita que estava fora do lugar, nem as conversas apagadas da memória, nem as desculpas que ficaram por serem pedidas. o que precisava de freio era seu impulso kamikaze de ir até o fim sempre, mesmo quando faltava pouco para amanhecer e quase nada deveria ser feito.
parou de usar a bebida como véu e resolveu encarar suas dores e frustrações de frente, como mulherão que era. ligou para sua melhor amiga e sentaram as duas no botequim predileto de santa teresa. junto com a cerveja, pediu uma porção de jiló. se pegou saudosa de quando era obrigada a sentir gosto tão amargo quanto o da rejeição, emoção espectral projetada que a acompanhava desde a infância, por mais que fosse amada, respeitada e elogiada. foi só aí que entendeu o instinto de proteção da mãe pianista e sua tosca analogia entre música e culinária. depois do primeiro brinde, sacou finalmente que a ressaca moral é somente o porre que não deu certo. se deu conta de que precisava gostar mais de si mesma e de que deveria estar pronta para se perdoar por inteiro.
decidiu também que de agora em diante os rapazes é que viriam atrás dela antes do amanhecer.
- jiló está para a culinária assim como debussy está para a música: ambos são amargos, de difícil digestão, mas totalmente indispensáveis.
ainda menina, achava esse papo uma bobagem mas tinha de obedecer às diretrizes maternas. quando finalmente fez 18 anos e teve permissão para parar de comer jiló, se sentiu tão adulta que resolveu comemorar dando uns tragos no cigarro de uma amiga. não deu muito certo porque seu organismo não se adaptava bem ao vício e sempre que fumava ficava enjoada e acabava abraçada ao primeiro vaso sanitário que aparecia pela frente, o que não era legal, principalmente nessa fase da vida em que a única coisa que realmente importa é provar que se sabe fumar, beber, fazer sexo e dar gargalhadas altas. assim, parou com as baforadas e começou a beber. a verdade é que poucas pessoas gostam tanto de sentar num boteco quanto francine. a bebida foi responsável por muitas coisas interessantes em vários momentos de sua vida, desde conhecer pessoas até escrever roteiros de filmes, contos e cartas de amor. foi bebendo que aprendeu a gargalhar de si mesma e, em 90% das vezes, acordava se sentindo ótima, louca para telefonar para as amigas e fofocar sobre os detalhes da noite anterior. porém, nos 10% dos casos restantes, a coisa fazia mal à moça. francine demorou para detectar que a tal da ressaca moral era justamente a triste percepção de ter sido traída pela própria memória e de ter perdido a chance de terminar a noite sem se expor tanto.
o curioso é que para ela os porres nunca foram uma ameaça à sua integridade física: sempre conseguia chegar em casa, nunca quebrou as pernas, nunca tirou a roupa em público, nunca foi estuprada nem assaltada, nunca vomitou no colo de ninguém nem jamais se esqueceu de como se coloca camisinha com a boca. ainda que nada de muito errado tivesse acontecido, acordava por vezes sobressaltada, com a sensação de que tinha feito merda. e essa sensação era mais forte quando se esquecia de conversas inteiras. para disfarçar, fingia que estava tudo bem, rezava pra pessoa também não se lembrar de porra nenhuma, engolia um possível pedido de desculpas junto com o engov e a coca-cola e se isolava no seu casulo, único lugar aonde não sentia medo de si mesma.
francine ainda tinha um agravante: era geminiana. é fato notório que geminiano quando resolve pensar, se tortura. quando resolve parar de pensar, não consegue. e quando acha que conseguiu, sente culpa. a culpa corroía sua alma de tal forma que resolveu dar um basta nessa situação. não sabia exatamente o que tinha de fazer. só sabia que precisava quebrar esse paradigma, mesmo que ainda lhe faltassem as ferramentas. foi pra cozinha, pegou a faca mais afiada e cortou umas 3 cebolas. as lágrimas, a princípio fisiológicas, foram aos poucos caindo sentidas. foi quando francine se deu conta de que não era a birita que estava fora do lugar, nem as conversas apagadas da memória, nem as desculpas que ficaram por serem pedidas. o que precisava de freio era seu impulso kamikaze de ir até o fim sempre, mesmo quando faltava pouco para amanhecer e quase nada deveria ser feito.
parou de usar a bebida como véu e resolveu encarar suas dores e frustrações de frente, como mulherão que era. ligou para sua melhor amiga e sentaram as duas no botequim predileto de santa teresa. junto com a cerveja, pediu uma porção de jiló. se pegou saudosa de quando era obrigada a sentir gosto tão amargo quanto o da rejeição, emoção espectral projetada que a acompanhava desde a infância, por mais que fosse amada, respeitada e elogiada. foi só aí que entendeu o instinto de proteção da mãe pianista e sua tosca analogia entre música e culinária. depois do primeiro brinde, sacou finalmente que a ressaca moral é somente o porre que não deu certo. se deu conta de que precisava gostar mais de si mesma e de que deveria estar pronta para se perdoar por inteiro.
decidiu também que de agora em diante os rapazes é que viriam atrás dela antes do amanhecer.
as amigas de ana
as amigas de ana fazem dela várias. tudo que ana não viveu até hoje, seja por falta de oportunidade, de coragem ou de sorte, o fez por intermédio de suas amigas mulheres, que não são muitas, mas suficientes. na escola só teve uma: negra, altíssima, atleta e gênia de plantão, discriminada por tantas razões, mas altiva como uma deusa, irredutível e combativa. foram cúmplices na difícil tarefa de existir num mundo que não curte o diferente. na faculdade é que tudo realmente começou e passou a ser concreto: a primeira paixonite por um professor, a primeira transa, as pegações nas chopadas, as noites sem dormir, as histórias memoráveis, as histórias contadas por outrem, as coisas ditas em excesso, as coisas não ditas por medo e que pairam até hoje como jujubas estragadas no fundo do pote mofado atrás da louça reservada para o casamento desmanchado por pura bravura. foi na faculdade que construiu os pilares de sua feminilidade estranha e a capacidade de amar à distância as amigas que casaram e tiveram que partir, seja pra outros estados e países, seja para outro universo, o do marido insensível e preocupado somente com a própria dor nas costas e com o futebol de quarta-feira à noite, mesmo quando não se trata de seu time e sim de 15 de jaú contra 15 de piracicaba. aprendeu a amar e a respeitar as amigas que não são mais amadas e que só permanecem casadas por medo de uma solidão exposta, de uma surra ou de terem de criar crianças sem a figura paterna. aprendeu a respeitar inclusive as mães das amigas que simplesmente não aceitam o fato de uma moça “tão bonita e inteligente como você não estar casada e não ter filhos”. hoje entende que elas não falam isso por maldade e não se irrita mais. como nem tudo é sempre cruel o tempo todo, ana ama os poucos maridos que fazem felizes suas amigas e que gostam de recebê-la num domingo para uma cerveja em casa, para ficarem todos bêbados e cercados pelo atordoante e delicioso barulho das crianças que insistem em crescer como samambaias choronas bem regadas. no fundo, lá dentro, mesmo sem admitir pra ninguém, ainda sonha em encontrar um homem assim, sensível, companheiro e imperfeito, que goste de 15 de jaú contra 15 de piracicaba, mas que não dispense flores, poesias, bombons e massagem nos pés, porque é disso que moças como ana gostam: da imperfeição concreta e dos domingos bêbados.
valdomira
valdomira é formada em educação física. já foi bailarina. já foi muito gostosa. já parou trânsito. mas o tempo, o computador, a tv, o miojo e o controle remoto exerceram suas funções e aquele belo torso passou a ser lembrado somente por poucos seletos a quem valdomira mostrava (quase pedindo desculpas) suas fotos antigas. cansada de ter sempre que ir na frente quando o carro está cheio, resolveu mudar sua situação e tomou algumas atitudes que, agora, passados 6 meses, parecem estar surtindo efeito. são as pequenas coisas que fazem a diferença: outro dia, enquanto tomava banho, olhou para trás e viu sua própria bunda, façanha que antes só era possível com o auxílio de um espelho. na sua ex-atual loja predileta, conseguiu comprar uma saia g. a verdade é que não ser mais uma criatura gg conferiu-lhe dignidade e confiança. o aspecto relacionado ao sexo oposto foi aonde as mudanças ficaram mais evidentes: acostumada a ser cumprimentada somente quando estava ao lado de uma amiga magra, a só trepar de luz apagada e a só andar com caras problemáticos (geralmente regidos sob o signo de escorpião), valdomira passou a ser observada, cumprimentada e desejada por homens atraentes, desses bem machos e cheios de atitude, que são atraentes sem serem bonitinhos. foi se pesar pra saber a matemática da coisa. ao todo, foram 10 os quilos perdidos. quando olha para trás, não vê 6 meses, vê 10 quilos. o tempo passou em quilos. entendeu a ditadura da beleza e a lógica espoliante da milionária indústria da dieta. olhando assim, sem prestar atenção, parece até que valdomira está muito feliz. mas ainda lhe falta alguma coisa, que ela simplesmente não consegue definir o que é. deve ser essa tal de felicidade, que não contém calorias, não engorda, não faz mal, mas anda em falta no mercado. dizem que está pra chegar. talvez na semana que vem, junto com as saias tamanho m.
alícia não mora mais ali
alguém disse pra alícia que a vida era simples e fácil e, não se sabe bem porque, ela acreditou. como sua rotina classe média zona sul arroz feijão bife e batata frita não sofria grandes abalos sísmicos, continuava distribuindo seu sorriso ortodonticamente correto, sem cáries e com hálito puro. quanto mais sorria, mais achava que quem disse pra ela que a vida era simples e fácil estava certíssimo. enquanto os problemas reais não apareciam, alícia se imbuía na criação de neuroses em cativeiro. a última delas surgiu depois de ler uma reportagem sobre os malefícios do glúten na dieta. impresionante como a coisa atingiu níveis assombrosos. - alô, queria falar com a alícia. - é ela. - oi, fofinha, aqui é clara. - oi, clara, tudo certo? - tudo querida, olha, tô te ligando pra dizer que a amara chegou de barcelona hoje e convidou todo mundo pra tomar uma cerva na choperia do marido da rose, que tal? - não vai dar não. - por que, meu bem? - porque cortei o glúten da minha dieta e cerveja contém glúten. - poxa, mas você está com algum problema de saúde que te impede de comer glúten? - não, mas eu quero me prevenir, né? quero ter uma vida longa e saudável e o glúten é um inimigo muito poderoso. pra você ter uma idéia, cortei todos os derivados de farinha de trigo da minha dieta. - tá certo, mas você pode ir e não beber, que tal? - mas o lance é que se eu começar a ver vocês bebendo e rindo, vou ficar mal e deprimida. - mas amiga, esse momento é tão especial, a amara tá em barcelona há 10 anos e está louca pra encontrar a gente. faz uma forcinha, vai. - clarinha, tenho que desligar, depois ligo pra amara. beijo. - beijo. alícia não foi à choperia. também não ligou pra amara. também não comeu mais pão francês. também parou de sair com as amigas para boates, pois não conseguia vê-las bebendo e ficar abstêmia. colocou na dieta sem glúten todas as expectativas de uma vida saudável e bem sucedida. virou uma chata mal comida resmunguenta, uma escrava do próprio cativeiro. mesmo não tendo mudado de endereço, a impressão que se tinha era a de que alícia não morava mais ali.
magda
magda perdeu o apetite. parecia uma gripe, mas não havia febre nem corisa nem dor de cabeça. o fato é que há 2 semanas nem água a moça queria beber. levaram no médico, fizeram exame de sangue, de aids, de tuberculose. nada feito. depois de 6 quilos, andaram até jurando que era anorexia. levaram pra psicóloga.
- você se acha gorda?
- não, acho até que tô magra demais.
- então porque não quer comer?
- promete que não conta pra ninguém, doutora?
- sim, prometo.
- a comida perdeu o gosto desde que parei de tomar café da manhã com ele.
- ele quem?
- fabrício, um mineiro maravilhoso que eu conheci no último congresso de bioquímica, há 6 semanas.
- vocês se relacionaram?
- não sei, doutora. tomar café da manhã junto é se relacionar? dançar de rosto colado e passar a mão na perna é se relacionar? cantar várias músicas do chico buarque no violão, olhando olho no olho é se relacionar?
os olhos da doutora ficaram marejados mas, ainda assim, conseguiu sorrir. lembrou de seus amores platônicos e da dor que aquilo lhe causara. pegou o carro, levou a menina à praia, sentou com ela na areia e, como não havia nada melhor a dizer, apenas navegou pelo óbvio:
- eu sei que parece que não vai passar nunca, mas quando você estiver velhinha, com seus netos, sentada aqui nessa areia, você vai rir muito de tudo isso.
magda chorou de um olho só e pediu um queijo de coalho.
quando não há nada a ser feito, até ficar parado dói.
- você se acha gorda?
- não, acho até que tô magra demais.
- então porque não quer comer?
- promete que não conta pra ninguém, doutora?
- sim, prometo.
- a comida perdeu o gosto desde que parei de tomar café da manhã com ele.
- ele quem?
- fabrício, um mineiro maravilhoso que eu conheci no último congresso de bioquímica, há 6 semanas.
- vocês se relacionaram?
- não sei, doutora. tomar café da manhã junto é se relacionar? dançar de rosto colado e passar a mão na perna é se relacionar? cantar várias músicas do chico buarque no violão, olhando olho no olho é se relacionar?
os olhos da doutora ficaram marejados mas, ainda assim, conseguiu sorrir. lembrou de seus amores platônicos e da dor que aquilo lhe causara. pegou o carro, levou a menina à praia, sentou com ela na areia e, como não havia nada melhor a dizer, apenas navegou pelo óbvio:
- eu sei que parece que não vai passar nunca, mas quando você estiver velhinha, com seus netos, sentada aqui nessa areia, você vai rir muito de tudo isso.
magda chorou de um olho só e pediu um queijo de coalho.
quando não há nada a ser feito, até ficar parado dói.
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