Quando Glorinha era aspirante a atriz, adorava festejar Nelson Rodrigues:
- Ele abusava das bizarrices e não tinha medo do ridículo! Um gênio em estado puro!
Com o tempo, desistiu do teatro. Hoje faz estágio em um jornal e foi escolhida para cobrir a Festa Literária de Paraty. Assim que soube da novidade, reuniu as amigas e foram comemorar à moda carioca, aplaudindo o pôr-do-sol no Posto Nove. Sentia-se a mais competente das estagiárias e chegou a achar que aquelas palmas todas eram só para ela.
- Gente, não tô acreditando! Eu vou cobrir a FLIP logo no ano em que o homenageado é o Nelson. Assim que acabar esse baseado vou pra casa pensar na minha pauta.
O entusiasmo não era à toa. Ali estava sua grande chance, não só pelo tamanho do evento, mas, especialmente, pelo quarto com cama de casal que teria só para ela. Assim que desfez as malas, aprendeu a dividir seu tempo: de dia, pensava em perguntas brilhantes; à noite, arquitetava uma forma de não tomar café da manhã sozinha.
Logo nas primeiras perambulações noturnas, teve medo de virar estatística ortopédica, pois as pedras irregulares de Paraty ameaçavam até o mais estóico dos tornozelos. Movida por pura autopreservação, passou a olhar mais para o chão do que para os meninos, desestruturando drasticamente todo o planejamento feito em prol da paquera.
Decepcionada, entra no primeiro boteco e pede cachaça local. Só então repara no cartaz com uma das inúmeras frases lapidares do homenageado: “Só acredito em amor que chora”. Enquanto aquelas palavras reverberavam em sua bela cabecinha, notou do outro lado da rua um varão de queixo reto, olhar firme e andar levemente claudicante. Tratava-se na verdade de um belo coxo, que sabia fazer poesia, pirão de peixe e surpresas.
Pela primeira vez na vida Glorinha fez sexo sem burocracia e, inteiramente molhada, engoliu em seco todos os preconceitos criados no cativeiro de sua alma classe média bacaninha.
Acabada a festa, na segunda pela manhã, voltou para a redação. A vidinha tinha que continuar, era o único jeito.
Nas curvas da estrada, chorou de molhar o sutiã.
Agora sim tinha cacife para festejar Nelson Rodrigues.
segunda-feira, 10 de março de 2008
À moda de Jorge
Jorge é filho de costureira e estava acostumado ao constante entra-e-sai de mulheres em sua casa. Desde muito cedo, demonstrava interesse pelas clientes mais frívolas, dessas que só se preocupam em parecer mais magras e mais jovens do que realmente são. Não se sabe bem o motivo, mas ele conseguia fazê-las acreditarem em suas próprias fantasias. Assim, dia após dia, aquele garoto tímido foi se transformando numa criatura ousada e inventiva.
Um belo dia, chega em casa com a novidade:
- Vou fazer vestibular pra Moda!
- Mas tem faculdade disso?
- Mãe, não me mata de vergonha!
- E eu vou lá saber? No meu tempo, as mulheres que podiam estudar viravam normalistas. Os homens, no máximo, médicos ou engenheiros. Essa coisa de moda era só pra filho de bacana que ia pra Europa e voltava cheio de idéias!
- A coisa vai ser assim: eu desenho e a senhora costura. Vamos ficar ricos e famosos e, se Deus quiser, daqui a alguns anos, vamos passear na Ilha de Caras!
Só de ouvir essas palavras, aquele coração de mãe vinha à boca, pois, filha de padeiro com quituteira, era a primeira da família a ter um filho universitário. E isso já era um feito do qual podia se vangloriar no baile da terceira idade que freqüentava aos domingos.
Os anos passaram com certa violência e tiraram a velha costureira do convívio de Jorge. No dia do enterro, depois que todos foram embora, tal qual Scarlet O’Hara, o moço profetizou:
- Vou levar nosso nome pras alturas, mãezinha! A senhora vai ver! De lá de cima, mas vai ver!
Dias depois, já estava numa Fashion Week. Daí para o sucesso o caminho foi relativamente curto, pois sua ambição cabia como uma luva de pelica naqueles ambientes em que as partes nunca são pelo todo. E em que o todo não deve ser pleno, sob pena de descortinar uma desconfortável espontaneidade.
Antenado, Jorge optou por esconder suas origens e, para ostentar confiança, transformou-se na cópia da cópia de si mesmo. Se por ventura ficasse cansado de tanto simulacro, pensava na Semana de Madri, onde estreou internacionalmente e aprendeu, numa só tacada, a distribuir sorrisos de poliéster e a fingir que velhos conhecidos eram feitos de vidro, por onde seu olhar podia atravessar languidamente.
Mas a notoriedade mesmo veio quando copiou discretamente uma estilista tailandesa e disse tratar-se de mera licença poética. Logo depois, recusou o convite para participar de um evento dedicado à bajulação das novas estrelas da moda. Preferiu tirar férias em Mikonos.
Isso foi suficiente para que o editor-chefe de uma grande revista, conhecedor das tendências orientais, concluísse, em matéria de capa, que aquele jovem sabia o preço do sucesso, mas, de forma curiosa, não vendia sua alma corsária, ainda que ela estivesse muito bem cotada no leilão das vaidades descartáveis.
Diga-se de passagem, esse editor era conhecido por ser implacável nas suas avaliações mercadológicas: ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários.
Mesmo os feitos de poliéster barato.
Um belo dia, chega em casa com a novidade:
- Vou fazer vestibular pra Moda!
- Mas tem faculdade disso?
- Mãe, não me mata de vergonha!
- E eu vou lá saber? No meu tempo, as mulheres que podiam estudar viravam normalistas. Os homens, no máximo, médicos ou engenheiros. Essa coisa de moda era só pra filho de bacana que ia pra Europa e voltava cheio de idéias!
- A coisa vai ser assim: eu desenho e a senhora costura. Vamos ficar ricos e famosos e, se Deus quiser, daqui a alguns anos, vamos passear na Ilha de Caras!
Só de ouvir essas palavras, aquele coração de mãe vinha à boca, pois, filha de padeiro com quituteira, era a primeira da família a ter um filho universitário. E isso já era um feito do qual podia se vangloriar no baile da terceira idade que freqüentava aos domingos.
Os anos passaram com certa violência e tiraram a velha costureira do convívio de Jorge. No dia do enterro, depois que todos foram embora, tal qual Scarlet O’Hara, o moço profetizou:
- Vou levar nosso nome pras alturas, mãezinha! A senhora vai ver! De lá de cima, mas vai ver!
Dias depois, já estava numa Fashion Week. Daí para o sucesso o caminho foi relativamente curto, pois sua ambição cabia como uma luva de pelica naqueles ambientes em que as partes nunca são pelo todo. E em que o todo não deve ser pleno, sob pena de descortinar uma desconfortável espontaneidade.
Antenado, Jorge optou por esconder suas origens e, para ostentar confiança, transformou-se na cópia da cópia de si mesmo. Se por ventura ficasse cansado de tanto simulacro, pensava na Semana de Madri, onde estreou internacionalmente e aprendeu, numa só tacada, a distribuir sorrisos de poliéster e a fingir que velhos conhecidos eram feitos de vidro, por onde seu olhar podia atravessar languidamente.
Mas a notoriedade mesmo veio quando copiou discretamente uma estilista tailandesa e disse tratar-se de mera licença poética. Logo depois, recusou o convite para participar de um evento dedicado à bajulação das novas estrelas da moda. Preferiu tirar férias em Mikonos.
Isso foi suficiente para que o editor-chefe de uma grande revista, conhecedor das tendências orientais, concluísse, em matéria de capa, que aquele jovem sabia o preço do sucesso, mas, de forma curiosa, não vendia sua alma corsária, ainda que ela estivesse muito bem cotada no leilão das vaidades descartáveis.
Diga-se de passagem, esse editor era conhecido por ser implacável nas suas avaliações mercadológicas: ele implicava com leiloeiros; apreciava mais os falsários.
Mesmo os feitos de poliéster barato.
A lista de Cindy
Cindy resolveu listar as características que mais a atraem no sexo oposto, pois acabara de completar 38 anos e seus óvulos não estavam ficando mais jovens. Para tanto, pediu ajuda à sua amiga Ângela, casada há mais de mil anos com o mesmo homem e mãe de três lindas crianças.
- Se disser que vai me ligar no dia seguinte, tem que cumprir com o combinado!
- Justo!
- Não dá pra ser mais baixo que eu, nem mais pobre, nem mais burro.
- Que mais?
- Não pode falar “menas”, nem “pra mim fazer” e nem dizer que “vai estar me ligando”.
- Sim, claro!
- Também não pode feder, já que sou toda cheirosinha e alérgica.
- Lógico, né, Cindy!
- Melhor que não fume, não seja artista, não tenha filhos e more na Zona Sul. Agora, se não morar, tem que ter carro, porque não tenho mais idade pra pegar trem!
- É, você no trem realmente seria um espetáculo à parte...
- Ainda não acabou: não gosto de homem que olha pros peitos das minhas amigas e que fica falando das ex-namoradas!
- Tá certo, Cinderela...
- Posso continuar ou você vai ficar debochando?
- Fala!
- Não curto barrigão de chopp e nem peito super cabeludo.
- Alguma observação em relação à idade?
- Que tenha menos de 50, porque senão vai ser avô do meu filho ao invés de pai!
- Acabou?
- Prefiro que não seja alcóolatra e que saiba falar através de metáforas.
- Metáforas?
- É claro, Ângela! Uma metáfora bem feita é capaz de me tirar da adstringência!
- Aí fica complicado, querida. Olha, já tô em cima da hora pra pegar as crianças, senão levo advertência da escola, é mole? Mas acho melhor você repensar suas exigências, porque a coisa tá preta!
Para não ficar pensando muito em coisas que provavelmente não vão mudar de jeito nenhum, pegou uma revista feminina e topou justo com uma reportagem sobre as agruras vividas pelas fêmeas solitárias que, discreta e desesperadamente, saíam às ruas à procura de um varão que não fosse gay e que não tivesse namorada. As dicas para o desencalhe eram a parte mais assustadora, como se freqüentar supermercados pela madrugada, elaborar perfis em sites de encontros e entrar pro jiu-jitsu fossem as coisas mais naturais na vida de uma mulher. Ao terminar sua leitura, as palavras de Ângela ecoavam como um terrível vaticíno: a coisa estava realmente preta!
Percebeu, então, estar diante de uma encruzilhada existencial: ou continuava sendo exigente e, portanto, incapaz de dispensar uma boa metáfora vinda de um peito moderadamente cabeludo e jovem, ou disfarçava sua insatisfação em meia dúzia de sorrisos triviais e fingia achar perfeito aquilo que não lhe agradava de todo, engrossando o coro das mulheres sem-critério que resvalavam na felicidade como tiros que saem pelas culatras.
Já que a situação era aquela, achou melhor sentar-se debaixo da árvore do tempo, para aproveitar a grandeza de sua sombra e a firmeza de seu tronco. Quem sabe assim, tranqüila e desavisada, não lhe caía uma fruta da estação bem suculenta aos pés?
Pensou nisso e, finalmente, relaxou.
- Se disser que vai me ligar no dia seguinte, tem que cumprir com o combinado!
- Justo!
- Não dá pra ser mais baixo que eu, nem mais pobre, nem mais burro.
- Que mais?
- Não pode falar “menas”, nem “pra mim fazer” e nem dizer que “vai estar me ligando”.
- Sim, claro!
- Também não pode feder, já que sou toda cheirosinha e alérgica.
- Lógico, né, Cindy!
- Melhor que não fume, não seja artista, não tenha filhos e more na Zona Sul. Agora, se não morar, tem que ter carro, porque não tenho mais idade pra pegar trem!
- É, você no trem realmente seria um espetáculo à parte...
- Ainda não acabou: não gosto de homem que olha pros peitos das minhas amigas e que fica falando das ex-namoradas!
- Tá certo, Cinderela...
- Posso continuar ou você vai ficar debochando?
- Fala!
- Não curto barrigão de chopp e nem peito super cabeludo.
- Alguma observação em relação à idade?
- Que tenha menos de 50, porque senão vai ser avô do meu filho ao invés de pai!
- Acabou?
- Prefiro que não seja alcóolatra e que saiba falar através de metáforas.
- Metáforas?
- É claro, Ângela! Uma metáfora bem feita é capaz de me tirar da adstringência!
- Aí fica complicado, querida. Olha, já tô em cima da hora pra pegar as crianças, senão levo advertência da escola, é mole? Mas acho melhor você repensar suas exigências, porque a coisa tá preta!
Para não ficar pensando muito em coisas que provavelmente não vão mudar de jeito nenhum, pegou uma revista feminina e topou justo com uma reportagem sobre as agruras vividas pelas fêmeas solitárias que, discreta e desesperadamente, saíam às ruas à procura de um varão que não fosse gay e que não tivesse namorada. As dicas para o desencalhe eram a parte mais assustadora, como se freqüentar supermercados pela madrugada, elaborar perfis em sites de encontros e entrar pro jiu-jitsu fossem as coisas mais naturais na vida de uma mulher. Ao terminar sua leitura, as palavras de Ângela ecoavam como um terrível vaticíno: a coisa estava realmente preta!
Percebeu, então, estar diante de uma encruzilhada existencial: ou continuava sendo exigente e, portanto, incapaz de dispensar uma boa metáfora vinda de um peito moderadamente cabeludo e jovem, ou disfarçava sua insatisfação em meia dúzia de sorrisos triviais e fingia achar perfeito aquilo que não lhe agradava de todo, engrossando o coro das mulheres sem-critério que resvalavam na felicidade como tiros que saem pelas culatras.
Já que a situação era aquela, achou melhor sentar-se debaixo da árvore do tempo, para aproveitar a grandeza de sua sombra e a firmeza de seu tronco. Quem sabe assim, tranqüila e desavisada, não lhe caía uma fruta da estação bem suculenta aos pés?
Pensou nisso e, finalmente, relaxou.
Mulheres que bebem
- Ele é bem legal, vai!
- Jura?
- Se for preciso, posso até jurar...
- Mas você se lembra da noite toda, tintim por tintim?
- Sim.
- Lembra do debate sobre as mulheres que bebem?
- Lembro.
- Mesmo?
- Sim.
- Nossa...
- É, realmente, ele foi infeliz naquelas colocações, mas acho que foi por causa da avó dele...
- Avó, é? Sei...Pra mim, ele disse aquilo só porque é um machista dos infernos!
- Ah, que exagero!
- Se liga, boneca! Não é porque o rapaz é cheiroso e se veste com certa dignidade que ficou isento de ser um merda!
- Pára de levar essa história tão a sério! Nem teve tanta importância, vai!
- Pra você pode não ter tido, mas eu achei aquilo um acinte! Onde já se viu uma coisa dessas? O bofe, já no décimo chopp, acompanhando o ritmo frenético da mesa, resolve comentar, na frente das fêmeas presentes, que não gosta de mulher que bebe! Tive vontade de mandá-lo praquele lugar!
- E por que não mandou, então? Logo você, que se diz tão espontânea! Devia ter-se colocado!
- Ah, não tava a fim de criar conflito em plena noite de sexta-feira. Mas, porra, quem ele pensa que é? O fundador do AA? O defensor supremo da moral e dos bons costumes da classe média bacaninha portadora de laptop wi-fi? Ah, se eu fosse homem...comigo ele não se criava!
- Você é igualzinha a ele, só que na versão mulher! Não sei porque se ofende. Vocês são feitos da mesma matéria.
- Qualé? Tá me chamando de machista agora?
- Não é isso, querida, mas acho que o comentário dele não foi tão ofensivo. Acho que ele é um cara traumatizado com o alcoolismo. A avó dele bebeu até morrer, sabia? Pesada a história da coroa! Ele me contou que ela, já internada no hospital, pedia birita pra ele! A coroa vomitava, se limpava e continuava pedindo birita. Sabe o que é passar por isso ainda adolescente? Sinistro, amiga! Dá um desconto pro rapaz! Essa é uma seqüela dele...
- Aham...
- Pô, a gente tem que tentar entender que as pessoas têm dores abissais e que elas se manifestam de vez em quando, até mesmo em momentos de pura diversão. Olha, eu tenho certeza que ele não teve a intenção de ser desagradável, nem quis ofender abertamente todas as mulheres que bebem. Ele é só um cara fudido emocionalmente. Mas é uma pessoa boa, acredite!
- Você tá dando pra ele, não é?
- Putz...
- Tá, né? E pelo visto tá bom o negócio...
- Ai, ai...
- Impressionante, cara! Mulher é foda!
- Acho melhor você parar com essa pilha agora!
- Não páro não! Duvido que você tivesse essa postura se ele não te atraísse sexualmente! Aí, tenho certeza que você estaria do meu lado, estaria dizendo que reparou o quão machista foi o comentário dele e blá blá blá...mas a buceta fala mais forte, né?
- Olha só! Parou, ok? Parou! Você pensa que é quem, minha cara? Não sabe da missa a metade e fica pagando de feminista. Feminista de merda, diga-se de passagem, porque na hora que o machista dos infernos puxou a conta e pagou tudo no cartão dele, ninguém se manifestou. Geral ficou caladinho!
- Depois do que ele disse, tinha mais que obrigação de pagar a conta!- Ai, que nojo!
- Se você acha que eu não tô certa, por que você não se ofereceu pra rachar a conta com ele?
- Porque ele me come, ok? Porque depois dali, deixamos vocês em casa e trepamos até dez da manhã. Desculpe, mas eu gosto de homem que paga a minha conta, que abre a porta do carro, que me recebe com flores no aeroporto, que repara no meu corte de cabelo, que acende o meu cigarro e blá blá blá. Pode me chamar de antiquada, pode dizer que minha buceta fala mais alto. Alias, ela não fala alto não, amiga. Ela grita, berra, uiva! Ela é feliz, assim como a dona. Entendeu?
Diante do abismo que se abriu, as amigas precisaram ficar um tempo sem se encontrar.
Porque, por mais que o mundo venha discutindo a situação da mulher contemporânea e todos os fascinantes caminhos a serem percorridos por ela, muita coisa ainda clama por um código de ética, por um glossário ou até mesmo por uma bola de cristal.
No fundo, ainda que debaixo de muito ácido fólico, todas nós temos um quê de bruxa. Só que a fogueira em que ardemos é a da hipocrisia suprema.
- Jura?
- Se for preciso, posso até jurar...
- Mas você se lembra da noite toda, tintim por tintim?
- Sim.
- Lembra do debate sobre as mulheres que bebem?
- Lembro.
- Mesmo?
- Sim.
- Nossa...
- É, realmente, ele foi infeliz naquelas colocações, mas acho que foi por causa da avó dele...
- Avó, é? Sei...Pra mim, ele disse aquilo só porque é um machista dos infernos!
- Ah, que exagero!
- Se liga, boneca! Não é porque o rapaz é cheiroso e se veste com certa dignidade que ficou isento de ser um merda!
- Pára de levar essa história tão a sério! Nem teve tanta importância, vai!
- Pra você pode não ter tido, mas eu achei aquilo um acinte! Onde já se viu uma coisa dessas? O bofe, já no décimo chopp, acompanhando o ritmo frenético da mesa, resolve comentar, na frente das fêmeas presentes, que não gosta de mulher que bebe! Tive vontade de mandá-lo praquele lugar!
- E por que não mandou, então? Logo você, que se diz tão espontânea! Devia ter-se colocado!
- Ah, não tava a fim de criar conflito em plena noite de sexta-feira. Mas, porra, quem ele pensa que é? O fundador do AA? O defensor supremo da moral e dos bons costumes da classe média bacaninha portadora de laptop wi-fi? Ah, se eu fosse homem...comigo ele não se criava!
- Você é igualzinha a ele, só que na versão mulher! Não sei porque se ofende. Vocês são feitos da mesma matéria.
- Qualé? Tá me chamando de machista agora?
- Não é isso, querida, mas acho que o comentário dele não foi tão ofensivo. Acho que ele é um cara traumatizado com o alcoolismo. A avó dele bebeu até morrer, sabia? Pesada a história da coroa! Ele me contou que ela, já internada no hospital, pedia birita pra ele! A coroa vomitava, se limpava e continuava pedindo birita. Sabe o que é passar por isso ainda adolescente? Sinistro, amiga! Dá um desconto pro rapaz! Essa é uma seqüela dele...
- Aham...
- Pô, a gente tem que tentar entender que as pessoas têm dores abissais e que elas se manifestam de vez em quando, até mesmo em momentos de pura diversão. Olha, eu tenho certeza que ele não teve a intenção de ser desagradável, nem quis ofender abertamente todas as mulheres que bebem. Ele é só um cara fudido emocionalmente. Mas é uma pessoa boa, acredite!
- Você tá dando pra ele, não é?
- Putz...
- Tá, né? E pelo visto tá bom o negócio...
- Ai, ai...
- Impressionante, cara! Mulher é foda!
- Acho melhor você parar com essa pilha agora!
- Não páro não! Duvido que você tivesse essa postura se ele não te atraísse sexualmente! Aí, tenho certeza que você estaria do meu lado, estaria dizendo que reparou o quão machista foi o comentário dele e blá blá blá...mas a buceta fala mais forte, né?
- Olha só! Parou, ok? Parou! Você pensa que é quem, minha cara? Não sabe da missa a metade e fica pagando de feminista. Feminista de merda, diga-se de passagem, porque na hora que o machista dos infernos puxou a conta e pagou tudo no cartão dele, ninguém se manifestou. Geral ficou caladinho!
- Depois do que ele disse, tinha mais que obrigação de pagar a conta!- Ai, que nojo!
- Se você acha que eu não tô certa, por que você não se ofereceu pra rachar a conta com ele?
- Porque ele me come, ok? Porque depois dali, deixamos vocês em casa e trepamos até dez da manhã. Desculpe, mas eu gosto de homem que paga a minha conta, que abre a porta do carro, que me recebe com flores no aeroporto, que repara no meu corte de cabelo, que acende o meu cigarro e blá blá blá. Pode me chamar de antiquada, pode dizer que minha buceta fala mais alto. Alias, ela não fala alto não, amiga. Ela grita, berra, uiva! Ela é feliz, assim como a dona. Entendeu?
Diante do abismo que se abriu, as amigas precisaram ficar um tempo sem se encontrar.
Porque, por mais que o mundo venha discutindo a situação da mulher contemporânea e todos os fascinantes caminhos a serem percorridos por ela, muita coisa ainda clama por um código de ética, por um glossário ou até mesmo por uma bola de cristal.
No fundo, ainda que debaixo de muito ácido fólico, todas nós temos um quê de bruxa. Só que a fogueira em que ardemos é a da hipocrisia suprema.
Helena e Inês
- Será?
- Pode ser isso sim!
- Sei lá, Inês, tô meio sem saber o que pensar.
- Mas por que você tem sempre que saber o que pensar? Isso é uma das coisas que te fode, sabia?
- É, eu sei.
- Então, relaxa, Helena! As coisas sempre acabam dando certo, de um jeito ou de outro.
- Até parece!
- Pára de charme, nêga. Eu conheço poucas pessoas mais fantásticas que você. E digo isso de coração! Você é forte, sensível, talentosa. Além disso, domina as palavras com uma facilidade de dar inveja!
- Pára com isso que eu fico até sem jeito...
- Vou parar, mas antes me escuta! Apesar de tantas qualidades maravilhosas, você tem que entender que nem sempre as coisas precisam acontecer exatamente do jeito que você imagina ser o correto. Nem sempre a reta é a maneira mais interessante de unir dois pontos, entendeu?
- Saquei. Mas, me diga, o que você faria, se estivesse na mesma situação?
- Em primeiro lugar, eu seria honesta comigo mesma e me perguntaria o que eu quero de verdade. De nada adianta ficar procurando alguém que caiba numa idéia cristalizada de bom moço, sabe? Porque isso faz de você uma pessoa careta e mediana, entende? E aí, um cara legal, que por ventura venha a aparecer na sua vida, vê essa pessoa careta e cai fora! E tudo isso porque, mesmo sendo um cara legal, ele não chega nem a ter a oportunidade de te conhecer de verdade. Por exemplo, esse carinha aí, qual é a dele?
- Não sei. Na verdade ele mora longe e a gente vinha se falando basicamente pela internet. Mesmo assim, ele parecia interessado. Mas interessado de um jeito legal, sem ser grudento nem meloso, sabe? Só que tem que, de uns dias pra cá, ele sumiu, o que foi estranho, porque eu estava planejando ir visitá-lo no fim do mês.
- Estranho mesmo. Será que ele tá meio confuso com essa coisa da distância?
- Acho pouco provável, Inês.
- É, né? Bem, pode ser que ele esteja ocupadérrimo, numa dessas ondas enlouquecidas de trabalho, que acontecem com todo mundo. Agora, é bom ficar atenta, porque muitas vezes os meninos usam o trabalho como uma desculpa pra se afastar da gente sem ter que dizer a verdade.
- Ô...
- E tem também aquela velha história, que não podemos descartar, já que não sai de moda nunca, que é a da ex-namorada que aparece, de repente, a fim de reatar, como costuma acontecer em novelas e seriados, sabe?
- Se sei!
- Enfim, são tantas as possibilidades que chega a dar um cansaço só de pensar. Definitivamente, não dá pra entender o que se passa na cabeça dos homens!
- É, né? Será então que ele tá me testando?
- Humm...Será? Olha, minha intuição me diz que os homens não constumam ser tão maquiavélicos. Esse tipo de mesquinharia é mais coisa de mulher. Na verdade, os homens são mais simples do que costumamos imaginar. Uma vez, uma amiga ótima me disse uma coisa incrível, mais ou menos assim: que homem é que nem geografia na escola, melhor decorar do que tentar entender. Que tal?
- Essa foi boa! Então, acho que o melhor é deixar pra lá, né?
- Deixar pra lá não! Isso é pras mulheres medianas. Você é talentosa demais! Merece requinte!
- Ai, ai, amiga, você é uma figura!
- Pronto, tive uma idéia sensacional! Você vai escrever um conto e vai mandar pra ele, só pra ver a reação do rapaz!
- Aí é covardia! Ele adora as coisas que eu escrevo.
- Amiga, o moço vai adorar saber que você escreveu um conto inspirado nele.
- Mas ele vai achar que eu tô apaixonada! Vai sair correndo mais ainda!
- E você tá apaixonada?
- Não.
- Fala a verdade, caralho!
- Não tô! Mas confesso que estava gostando da situação, sim. Pensa bem: um carinha todo romântico, dizendo que quando eu for visitá-lo vai me dar tratamento vip, com direito a violão, caminhadas na natureza, sombra, água fresca...
- Violão, é?
- Isso mesmo!
- Só falta saber uma coisa.
- O que?
- Quantos anos ele tem?
- Exatamente a minha idade. Trinta e seis.
- É, cherrie, diante da realidade carioca, onde a maioria dos homens só pede o telefone das meninas para colecionar expectativas e ter o que comentar com os coleguinhas na hora do chopp...
- Agora você entendeu o babado, né, amiga?
- Sim, claro. Olha, não restam dúvidas do caminho a seguir: você vai escrever um conto pro moço vip. Ele não é romântico? No mínimo, vai adorar!
- Não sei não.
- O que você tem a perder? A virgindade?
Diante de tamanha veemência, Helena, embora ainda relutante, resolveu acatar a sugestão de Inês e, no dia seguinte, o conto já estava escrito.
- Ficou ótimo! Sucinto, objetivo e honesto.
- Mesmo?
- Mesmo! Fica claro no texto que você é uma paranóica do bem. Menina, se eu tivesse esse dom, economizaria uma baba na terapia!
- Mas você acha que vai surtir algum efeito bacana?
- O que você chama de efeito bacana?
- Ah, ele curtir o conto numa boa, sem ficar assustado.
- Sinceramente, em se tratando de homens, o susto é sempre um risco a se correr.
- É, né?
- É! Mas vida sem risco não é vida, é plano de saúde sem carência! E se o rapaz ficar arredio, fazer o quê? Pelo menos você foi macho o suficiente pra colocar suas neuroses pra fora e isso já é grande coisa. Agora, vamos!
- Vamos pra onde?
- Gata, esqueceu que hoje tem tributo a Pink Floyd naquele barzinho que eu te falei, lá na Barra da Tijuca? Só gatinho saúde, do jeito que você gosta! Vamos embora! A vida corre, a fila anda e a caixa é rápida!
- Ok! Bora! Vou colocar aquele tomara-que-caia vermelho então!
- Ótimo! Esse é o espírito!
Foram e beberam, felizes, na fonte da saúde suprema.
No meio daquele florido tributo, Helena teve, finalmente, uma das certezas mais pungentes de sua vida: a de que nas horas mais burras, para nos salvar do limbo, melhor que uma amiga sábia, só mesmo esse tal de rock’n roll.
- Pode ser isso sim!
- Sei lá, Inês, tô meio sem saber o que pensar.
- Mas por que você tem sempre que saber o que pensar? Isso é uma das coisas que te fode, sabia?
- É, eu sei.
- Então, relaxa, Helena! As coisas sempre acabam dando certo, de um jeito ou de outro.
- Até parece!
- Pára de charme, nêga. Eu conheço poucas pessoas mais fantásticas que você. E digo isso de coração! Você é forte, sensível, talentosa. Além disso, domina as palavras com uma facilidade de dar inveja!
- Pára com isso que eu fico até sem jeito...
- Vou parar, mas antes me escuta! Apesar de tantas qualidades maravilhosas, você tem que entender que nem sempre as coisas precisam acontecer exatamente do jeito que você imagina ser o correto. Nem sempre a reta é a maneira mais interessante de unir dois pontos, entendeu?
- Saquei. Mas, me diga, o que você faria, se estivesse na mesma situação?
- Em primeiro lugar, eu seria honesta comigo mesma e me perguntaria o que eu quero de verdade. De nada adianta ficar procurando alguém que caiba numa idéia cristalizada de bom moço, sabe? Porque isso faz de você uma pessoa careta e mediana, entende? E aí, um cara legal, que por ventura venha a aparecer na sua vida, vê essa pessoa careta e cai fora! E tudo isso porque, mesmo sendo um cara legal, ele não chega nem a ter a oportunidade de te conhecer de verdade. Por exemplo, esse carinha aí, qual é a dele?
- Não sei. Na verdade ele mora longe e a gente vinha se falando basicamente pela internet. Mesmo assim, ele parecia interessado. Mas interessado de um jeito legal, sem ser grudento nem meloso, sabe? Só que tem que, de uns dias pra cá, ele sumiu, o que foi estranho, porque eu estava planejando ir visitá-lo no fim do mês.
- Estranho mesmo. Será que ele tá meio confuso com essa coisa da distância?
- Acho pouco provável, Inês.
- É, né? Bem, pode ser que ele esteja ocupadérrimo, numa dessas ondas enlouquecidas de trabalho, que acontecem com todo mundo. Agora, é bom ficar atenta, porque muitas vezes os meninos usam o trabalho como uma desculpa pra se afastar da gente sem ter que dizer a verdade.
- Ô...
- E tem também aquela velha história, que não podemos descartar, já que não sai de moda nunca, que é a da ex-namorada que aparece, de repente, a fim de reatar, como costuma acontecer em novelas e seriados, sabe?
- Se sei!
- Enfim, são tantas as possibilidades que chega a dar um cansaço só de pensar. Definitivamente, não dá pra entender o que se passa na cabeça dos homens!
- É, né? Será então que ele tá me testando?
- Humm...Será? Olha, minha intuição me diz que os homens não constumam ser tão maquiavélicos. Esse tipo de mesquinharia é mais coisa de mulher. Na verdade, os homens são mais simples do que costumamos imaginar. Uma vez, uma amiga ótima me disse uma coisa incrível, mais ou menos assim: que homem é que nem geografia na escola, melhor decorar do que tentar entender. Que tal?
- Essa foi boa! Então, acho que o melhor é deixar pra lá, né?
- Deixar pra lá não! Isso é pras mulheres medianas. Você é talentosa demais! Merece requinte!
- Ai, ai, amiga, você é uma figura!
- Pronto, tive uma idéia sensacional! Você vai escrever um conto e vai mandar pra ele, só pra ver a reação do rapaz!
- Aí é covardia! Ele adora as coisas que eu escrevo.
- Amiga, o moço vai adorar saber que você escreveu um conto inspirado nele.
- Mas ele vai achar que eu tô apaixonada! Vai sair correndo mais ainda!
- E você tá apaixonada?
- Não.
- Fala a verdade, caralho!
- Não tô! Mas confesso que estava gostando da situação, sim. Pensa bem: um carinha todo romântico, dizendo que quando eu for visitá-lo vai me dar tratamento vip, com direito a violão, caminhadas na natureza, sombra, água fresca...
- Violão, é?
- Isso mesmo!
- Só falta saber uma coisa.
- O que?
- Quantos anos ele tem?
- Exatamente a minha idade. Trinta e seis.
- É, cherrie, diante da realidade carioca, onde a maioria dos homens só pede o telefone das meninas para colecionar expectativas e ter o que comentar com os coleguinhas na hora do chopp...
- Agora você entendeu o babado, né, amiga?
- Sim, claro. Olha, não restam dúvidas do caminho a seguir: você vai escrever um conto pro moço vip. Ele não é romântico? No mínimo, vai adorar!
- Não sei não.
- O que você tem a perder? A virgindade?
Diante de tamanha veemência, Helena, embora ainda relutante, resolveu acatar a sugestão de Inês e, no dia seguinte, o conto já estava escrito.
- Ficou ótimo! Sucinto, objetivo e honesto.
- Mesmo?
- Mesmo! Fica claro no texto que você é uma paranóica do bem. Menina, se eu tivesse esse dom, economizaria uma baba na terapia!
- Mas você acha que vai surtir algum efeito bacana?
- O que você chama de efeito bacana?
- Ah, ele curtir o conto numa boa, sem ficar assustado.
- Sinceramente, em se tratando de homens, o susto é sempre um risco a se correr.
- É, né?
- É! Mas vida sem risco não é vida, é plano de saúde sem carência! E se o rapaz ficar arredio, fazer o quê? Pelo menos você foi macho o suficiente pra colocar suas neuroses pra fora e isso já é grande coisa. Agora, vamos!
- Vamos pra onde?
- Gata, esqueceu que hoje tem tributo a Pink Floyd naquele barzinho que eu te falei, lá na Barra da Tijuca? Só gatinho saúde, do jeito que você gosta! Vamos embora! A vida corre, a fila anda e a caixa é rápida!
- Ok! Bora! Vou colocar aquele tomara-que-caia vermelho então!
- Ótimo! Esse é o espírito!
Foram e beberam, felizes, na fonte da saúde suprema.
No meio daquele florido tributo, Helena teve, finalmente, uma das certezas mais pungentes de sua vida: a de que nas horas mais burras, para nos salvar do limbo, melhor que uma amiga sábia, só mesmo esse tal de rock’n roll.
A certeza de Cristina
Cristina já havia se acostumado a varrer aflições pra debaixo do tapete e tinha o que se pode chamar de alma auto-limpante. Porém, dia desses, quando estava varrendo uma magoazinha besta, dessas que dois chopps costumam dar conta, a poeirada insurgiu-se como um ciclone contumaz, revelando a magnitude da tristeza que há tempos a acompanhava de forma sistemática e sorrateira. Por mais difícil que fosse uma descoberta desse porte, no fundo, chegava a ser um alívio poder finalmente ter motivos para abdicar do título que vinha ostentando desde sempre: o de baluarte da alegria flamejante. Dali em diante, um inexplicável apreço por si mesma tomou-a de assalto e algumas pequenas grandes atitudes foram tomadas.
Suas amigas de balada, no entanto, ficaram confusas:
- Parar de fumar, tudo bem, mas parar de beber é um pouco demais, não acha?
- Ah, sei lá, num tô a fim.
- Mas vem cá, qual a graça de sentar num boteco com as amigas e não encher a cara?
- Ué, pelo simples prazer de estar com as pessoas!
- Porra, mulher, qual foi? Virou crente?
Cristina até poderia entrar no mérito da questão, mas não estava a fim de destrinchar os meandros de sua psiquê. Queria apenas beber água tônica e jogar conversa fora. Assim, puxou um papo irrelevante qualquer e conseguiu mudar o rumo daquela prosa.
Uma semana depois, pra variar, saiu com as mesmas amigas. Como dessa vez não estava com paciência para papos irrelevantes e queria encerrar de vez a especulação sobre suas decisões, achou por bem fazer uso de uma mentira sincera:
- Tudo bem, vocês querem mesmo saber por que parei de beber?
O silêncio que se seguiu revelou a curiosidade daquele grupo de fêmeas.
- Parei porque quero emagrecer,ok? Conheci uma pessoa e estamos começando a sair. Não quis dar de primeira, pois preciso estar confiante. E se tem uma coisa que faz minha auto-estima ir pelo ralo é não conseguir olhar pra minha própria bunda sem o auxílio de um espelho, esteja ele no teto ou no armário embutido.
Fernanda, a mais animada da mesa, tomada por uma solidariedade pungente, partiu firme em direção ao resgate da auto-confiança da amiga:
- Mas você não precisa de espelho pra ver sua bunda, Cris! Quê isso? Olha o exagero, vai!
- É, Nanda, concordo, eu até que tô bem. Ainda! Mas todas sabemos que a birita dá uma dilatada básica no estômago e arredores. Se eu não me cuidar, essa gordurinha em volta da cintura vai se acumular e, quando eu menos perceber, terei passado de gostosona a grandona. E aí o caminho é sem volta!
Sentindo um certo desconforto no ar, fez um infalível apelo de mulher para mulher:
- Meninas, eu fiz 30 já tem um tempinho. Não posso mais ficar marcando touca! Quero passar uma boa imagem pra esse rapaz, tem algum mal nisso?
Fernanda chegou a se levantar, tamanha era sua incredulidade:
- Gente, essa mulher tá chamando o bofe de rapaz! Vocês estão crendo nisso? O bagulho é sério! Um brinde a essa doida!
Depois do brinde, como era de se esperar, veio o momento mulherzinha:
- Conta tudo, gata! Quem é ele? Ele é bem? Já deu pra sacar o calibre da pistola?
- Calma, gente! Vocês não conhecem, é um amigo do meu irmão, um analista de sistemas. E a pistola parece satisfatória, sim, suas taradas!
- Que vaca você! Arrumou um macho pirocudo pra pagar suas contas! Agora vai fazer a linha magra, abstêmia e viciada em esportes, né?
O celular de Cristina toca. Ela finge ser o pretendente do outro lado da linha:
- Oi, tudo bem? Me dá só um segundo?
Se afasta da mesa para ter privacidade. Na volta, paga sua tônica e aproveita pra sair em grande estilo:
- Meninas, era o gatinho. Vai passar lá em casa pra gente ir ao cinema e depois jantar no japonês. Fui!
Na verdade, era sua mãe ao telefone, avisando que havia passado no mercado e que, portanto, os estoques de coalhada, blanquet de peru e gelatina de morango tinham sido perfeitamente repostos.
Dentro do táxi, Cristina sentiu-se um pouco culpada por ter mentido pras amigas. Mas sabia, lá no fundo, que aquela mentira era de fato uma verdade projetada, pois uma certeza sem remetente dava o ar de sua graça e anunciava que, assim que conseguisse alcançar o olho do furacão, estaria pronta pra descer até o porão de sua consciência e executar uma faxina colossal.
Depois da limpeza, finalmente, poderia pensar em acordar todos os dias na companhia de um só homem, que soubesse fazer surpresas e que gostasse de esportes intra-aeróbicos de baixo impacto e longa duração. Sem intuito competitivo, obviamente.
Nem era pedir muito.
Suas amigas de balada, no entanto, ficaram confusas:
- Parar de fumar, tudo bem, mas parar de beber é um pouco demais, não acha?
- Ah, sei lá, num tô a fim.
- Mas vem cá, qual a graça de sentar num boteco com as amigas e não encher a cara?
- Ué, pelo simples prazer de estar com as pessoas!
- Porra, mulher, qual foi? Virou crente?
Cristina até poderia entrar no mérito da questão, mas não estava a fim de destrinchar os meandros de sua psiquê. Queria apenas beber água tônica e jogar conversa fora. Assim, puxou um papo irrelevante qualquer e conseguiu mudar o rumo daquela prosa.
Uma semana depois, pra variar, saiu com as mesmas amigas. Como dessa vez não estava com paciência para papos irrelevantes e queria encerrar de vez a especulação sobre suas decisões, achou por bem fazer uso de uma mentira sincera:
- Tudo bem, vocês querem mesmo saber por que parei de beber?
O silêncio que se seguiu revelou a curiosidade daquele grupo de fêmeas.
- Parei porque quero emagrecer,ok? Conheci uma pessoa e estamos começando a sair. Não quis dar de primeira, pois preciso estar confiante. E se tem uma coisa que faz minha auto-estima ir pelo ralo é não conseguir olhar pra minha própria bunda sem o auxílio de um espelho, esteja ele no teto ou no armário embutido.
Fernanda, a mais animada da mesa, tomada por uma solidariedade pungente, partiu firme em direção ao resgate da auto-confiança da amiga:
- Mas você não precisa de espelho pra ver sua bunda, Cris! Quê isso? Olha o exagero, vai!
- É, Nanda, concordo, eu até que tô bem. Ainda! Mas todas sabemos que a birita dá uma dilatada básica no estômago e arredores. Se eu não me cuidar, essa gordurinha em volta da cintura vai se acumular e, quando eu menos perceber, terei passado de gostosona a grandona. E aí o caminho é sem volta!
Sentindo um certo desconforto no ar, fez um infalível apelo de mulher para mulher:
- Meninas, eu fiz 30 já tem um tempinho. Não posso mais ficar marcando touca! Quero passar uma boa imagem pra esse rapaz, tem algum mal nisso?
Fernanda chegou a se levantar, tamanha era sua incredulidade:
- Gente, essa mulher tá chamando o bofe de rapaz! Vocês estão crendo nisso? O bagulho é sério! Um brinde a essa doida!
Depois do brinde, como era de se esperar, veio o momento mulherzinha:
- Conta tudo, gata! Quem é ele? Ele é bem? Já deu pra sacar o calibre da pistola?
- Calma, gente! Vocês não conhecem, é um amigo do meu irmão, um analista de sistemas. E a pistola parece satisfatória, sim, suas taradas!
- Que vaca você! Arrumou um macho pirocudo pra pagar suas contas! Agora vai fazer a linha magra, abstêmia e viciada em esportes, né?
O celular de Cristina toca. Ela finge ser o pretendente do outro lado da linha:
- Oi, tudo bem? Me dá só um segundo?
Se afasta da mesa para ter privacidade. Na volta, paga sua tônica e aproveita pra sair em grande estilo:
- Meninas, era o gatinho. Vai passar lá em casa pra gente ir ao cinema e depois jantar no japonês. Fui!
Na verdade, era sua mãe ao telefone, avisando que havia passado no mercado e que, portanto, os estoques de coalhada, blanquet de peru e gelatina de morango tinham sido perfeitamente repostos.
Dentro do táxi, Cristina sentiu-se um pouco culpada por ter mentido pras amigas. Mas sabia, lá no fundo, que aquela mentira era de fato uma verdade projetada, pois uma certeza sem remetente dava o ar de sua graça e anunciava que, assim que conseguisse alcançar o olho do furacão, estaria pronta pra descer até o porão de sua consciência e executar uma faxina colossal.
Depois da limpeza, finalmente, poderia pensar em acordar todos os dias na companhia de um só homem, que soubesse fazer surpresas e que gostasse de esportes intra-aeróbicos de baixo impacto e longa duração. Sem intuito competitivo, obviamente.
Nem era pedir muito.
Jorge e Jane
Aparentemente, Jorge e Jane formavam um belo casal: ele, político marxista; ela, colunista interessada em relações humanas. Intelectualmente ágeis, eram conhecidos como aquele casal que problematizava tudo o que via pela frente, do preço do tomate orgânico à queda do dólar. O embate de neurônios realmente os excitava e tinha um efeito muito mais eficaz do que qualquer par de algemas, chicote ou óleo para passar nas entranhas. Podiam ficar dias assim, teorizando e exibindo seus cérebros esculpidos em horas e mais horas de onanismo estético.
Com o passar dos anos, no entanto, a vida deles foi parecendo mais bacana do que na verdade era, já que Jorge, apesar de ter-se transformado num político digno e eloquaz, dentro de casa era uma pessoa lacônica, broxa e até pusilânime. Isso foi fazendo de Jane uma mulher insegura, impotente e frígida.
Mas a gota d’água ainda estava por vir:
- Então, querido, preciso saber o que você achou daquele release que fiz pra sua amiga lá do Partidão.
- Legal.
- Mas e a parte em que eu falo que a modéstia é a purgação burguesa, você não achou pesada demais?
- Achei dialética.
- Mesmo?
- Aham. Pertinente.
Acontece que Jane não tinha sequer citado a burguesia em seu release e aquilo foi meio que a azeitona azeda da empada existencial na qual havia se transformado seu casamento.
- Mas você não acha que essa é uma falsa questão?
- Não, Jane, já disse que achei bom, ok? Agora queria terminar de escrever esse artigo, que é pra plenária de amanhã.
Jane, que tinha até comprado uma caixa de K.Y., finalmente entendeu o cerne da questão e resolveu, após anos de secura e estagnação, agir de forma pragmática.
- O que você está fazendo?
- As malas.
- Pára de drama, vai! Assim que eu terminar aqui a gente vai na locadora pegar uns filminhos, ok?
- Ah é? E o que você quer ver? Lua de Fel, O Império dos Sentidos ou Encaixotando Helena?
- Ih...
- Chega, Jorge! Eu sou nova, bonita, inteligente e minha bunda ainda nem sequer começou a dar sinais de queda. Se eu não sair desse casamento com meus próprios pés, ninguém vai vir me buscar. Você é um homem ótimo, um político sensacional, mas esqueceu que a paudurescência é a única maneira de sair dessa caverna de Platão que virou nossa vida. Pra mim chega! Eu não quero mais ser seca e suave!
Jane jogou fora a caixa de K.Y., pegou suas coisas e, sem perder a ternura que ainda lhe restava, virou uma caçadora da umidade perdida.
Já Jorge, terminou a tempo de escrever seu artigo, fez um café e acendeu um charuto.
Com o passar dos anos, no entanto, a vida deles foi parecendo mais bacana do que na verdade era, já que Jorge, apesar de ter-se transformado num político digno e eloquaz, dentro de casa era uma pessoa lacônica, broxa e até pusilânime. Isso foi fazendo de Jane uma mulher insegura, impotente e frígida.
Mas a gota d’água ainda estava por vir:
- Então, querido, preciso saber o que você achou daquele release que fiz pra sua amiga lá do Partidão.
- Legal.
- Mas e a parte em que eu falo que a modéstia é a purgação burguesa, você não achou pesada demais?
- Achei dialética.
- Mesmo?
- Aham. Pertinente.
Acontece que Jane não tinha sequer citado a burguesia em seu release e aquilo foi meio que a azeitona azeda da empada existencial na qual havia se transformado seu casamento.
- Mas você não acha que essa é uma falsa questão?
- Não, Jane, já disse que achei bom, ok? Agora queria terminar de escrever esse artigo, que é pra plenária de amanhã.
Jane, que tinha até comprado uma caixa de K.Y., finalmente entendeu o cerne da questão e resolveu, após anos de secura e estagnação, agir de forma pragmática.
- O que você está fazendo?
- As malas.
- Pára de drama, vai! Assim que eu terminar aqui a gente vai na locadora pegar uns filminhos, ok?
- Ah é? E o que você quer ver? Lua de Fel, O Império dos Sentidos ou Encaixotando Helena?
- Ih...
- Chega, Jorge! Eu sou nova, bonita, inteligente e minha bunda ainda nem sequer começou a dar sinais de queda. Se eu não sair desse casamento com meus próprios pés, ninguém vai vir me buscar. Você é um homem ótimo, um político sensacional, mas esqueceu que a paudurescência é a única maneira de sair dessa caverna de Platão que virou nossa vida. Pra mim chega! Eu não quero mais ser seca e suave!
Jane jogou fora a caixa de K.Y., pegou suas coisas e, sem perder a ternura que ainda lhe restava, virou uma caçadora da umidade perdida.
Já Jorge, terminou a tempo de escrever seu artigo, fez um café e acendeu um charuto.
Assinar:
Postagens (Atom)