segunda-feira, 31 de março de 2008

A parada hetero

Estava eu a trabalhar numa mostra no CCBB, vendo se o tempo passava de forma menos tediosa, quando encontro um rapaz que estuda cinema na UFF. Na verdade, quando ele entrou na faculdade eu já estava de saída, portanto, nem somos muito amigos, apenas colegas. Desta forma, nossa conversa nada mais é do que um show de amenidades, uma coisa simpatia é quase amor, bem comum em nosso meio. Só que dessa vez foi diferente. Não sei bem por que, mas o moço levantou questões bastante elucidativas da angústia do macho heterossexual pós-moderno.

-Por que você não foi à chopada ontem?
-Ah, porque quase não conheço mais ninguém da UFF. Além do mais, tô aqui na mostra, sabe como é, trabalhar de ressaca não rola...
-Claro, claro.
-Mas e aí? Tava legal?
-Mais ou menos
-Cerveja quente?
-Que nada, a cerveja tava gelada, o problema é que as meninas também...
-Jura? Poxa, na minha época o bicho pegava, era uma carnificina louca!
-Bons tempos...

Sem querer tirar minha oxítona terminada em u da reta, eu tenho lembranças (e amnésias) ótimas das chopadas, aliás, eventos essenciais dentro de um curso de graduação, onde interiores se revelam, namoros começam e filmes se queimam, exatamente nessa ordem.

Assim sendo, resolvi dar corda pro moço, pois senti que sua aflição era real.

-Mas não tinha nenhuma menina assim mais animada?
-Não.
-Será que você não está sendo muito exigente?
-Pior é que não! Eu estava mais do que facinho, mas ninguém se comoveu com minha macheza...
-Sei, posso te perguntar uma coisa?
-Claro.
-Você costuma citar filósofos em suas cantadas? Porque isso ninguém merece, né?
-Claro que não!
-Vou ser bem franca com você: pra mim, homem que leu Foucault demais não dá em boa coisa...
-É, nem pensar, fica micropoder pra lá, vigilância pra cá. Melhor não!
-Com certeza! Mas então qual será o problema?
-Você quer mesmo saber? Não vai me achar um machista recalcado?
-Diga lá!
-Acho que as meninas estão preferindo a companhia de meninas. Nós, homens heterossexuais, fazemos parte de uma minoria excluída. Inclusive, estou pensando em fazer uma parada do orgulho hetero, o que você acha?
-Hahahahahahahahaha! Orgulho hetero! Incrível!
-Sério, minha idéia é organizar um esquema bem bacana, criar um símbolo, ter uma bandeira e tudo o mais! Você me ajudaria?
-Sim, só temos que tomar cuidado pra não parecer coisa de gente reacionária, que prega a heterossexualidade em detrimento da diversidade.
-É mesmo, nem tinha pensado nisso...
-Mas a idéia é interessante, é só mesmo se ligar que a questão é delicada.
-Claro!
-E pode contar comigo, tô contigo e não abro!
-Poxa, até me animei agora, obrigado pela força!
-Que nada, disponha.

O colega foi embora e eu me senti uma pessoa melhor em poder ajudar. Afinal, até já perdi a conta de quantos homens sexualmente confusos passaram por mim e acabaram virando minha cabeça pelo avesso. É muito estranho se sentir minoria, ainda mais se o que gostamos é tido como “normal”. Mas, por outro lado, é sensacional perceber que o mundo está girando numa velocidade que não podemos mais controlar.

E que a liberdade, de tão livre, está sempre a nos criar novas prisões.

domingo, 23 de março de 2008

O tatame da implicância

-Ai, amiga, todo cara interessante que eu conheço, é sempre a mesma coisa.
-Dá pra ser mais específica?
-Ah, aquele velho esquema...
-Que esquema?
-Conhece, dá uns beijos, saca a pegada, dá o telefone, adiciona no msn, vira amiga no orkut, tudo isso em quinze dias.
-Sim, faz parte dessa coisa pós-moderna a velocidade com que as pessoas ficam íntimas.
-É, mas esse negócio de orkut, definitivamente, é o começo do fim...
-Fim do que, guria?
-Ah, fim da poesia, sabe? Por exemplo, esse carinha.
-Qual carinha, o que tem uma filhinha?
-Não, esse aí sumiu pra todo o sempre. Tô falando desse outro, mais recente...
-O que tem hálito de canela?
-Exatamente! Escuta só: ontem fui responder a um recado fofo que ele deixou pra mim.
-E tinha um recado duma gostosona na página dele, né?
-Caraca, como você sabe?
-Porque é um clássico do orkut, querida: a mulher chega, vê um recado da gostosa na página do peguete, vai no álbum dela pra dar aquele confere, vê que a mina é gata mesmo e já começa a ficar paranóica, achando que não é páreo pra esse tipo de potranca. Vejo isso toda dia lá no consultório!
-Pô, mas não é uma situação broxante?
-De certa forma é, mas o buraco é mais embaixo.
-Como assim?
-Quer mesmo ouvir?
-Claro!
-De repente você está construindo uma pessoa que ainda não existe de fato, sabe? Tudo bem, o carinha é interessante, beija bem, tem hálito de canela, te dá uns moles e tal...
-Ele me mandou flores vermelhas na semana passada...
-Legal, muito legal mesmo, a coisa está indo por um caminho bacana, mas veja bem, homem, de uma maneira geral, gosta de saber que tem várias mulheres disponíveis na área, sabe assim?
-Sei bem...
-Isso até ficar completamente envolvido com uma só e querer assumir uma relação a dois, concorda?
-Concordo.
-Portanto, tome o fato do hálito de canela ter potrancas por perto como uma coisa normal.
-Tá, normal é, o cara é solteiro. Mas entende que eu não tenho como competir com esse tipo de coisa?
-Entendo, claro, mas também não dá pra querer que o cara esqueça todas as amigas gostosas só porque há uma semana você apareceu na vida dele!
-Duas semanas! Conheço ele há duas semanas! Mas você tem razão, não dá!
-Vejamos pelo outro lado. No seu orkut deve ter um monte de recado de gatinho, ou não?
-De vez em quando até rola, mas eu corro pra apagar, pra ele não ver.
-Não acredito nisso!
-Ah, não gosto de ficar me exibindo...
-Posso te fazer uma pergunta bem indiscreta?
-Pode.
-Há quanto tempo você não trepa?
-Putz, tenho até vergonha de dizer.
-Tem mais de três meses?
-Por aí.
-Então, acho que isso é falta de sexo, amiga, na boa. Se você der prum homem que saiba o que está fazendo, num instante esse negócio de orkut passa, você vai ver.
-Cansei de sexo casual, já te disse!
-Até entendo seu lado, mas faz com um carinha legal, daí fica uma coisa emocionalmente segura, sabe?
-Sei...
-Não tem nenhum ex que você queira dar uma revisitada?
-Deus me livre!
-E amigo? Não tem nenhum que você queira provar?
-Já comi todos que eu tinha que comer.
-Não sobrou nenhum? Logo você, que anda com tantos homens interessantes...
-Tem aquele menino da faculdade que te falei uma vez, sabe, um que implica comigo o tempo todo?
-Aí, tá vendo? Homem implicante é o máximo! Corre até o risco de tomar umas porradinhas!
-Ai, não me dá idéia que eu me animo...
-Garota, tô aqui pra te animar! Você é a maior gostosa, rabuda, cheia de disposição!
-É, não chego a estar mal na fita não...
-Claro que não, ainda por cima inteligente, mulher de opinião! Fica aí perdendo tempo com recadinho de orkut! Quero ver se essas gurias sabem fazer metade do que você sabe ou se é tudo picolé de chuchu...
-É, vou chamar o implicante pra jogo!
-Chama, bela! E te digo mais: do jeito que você tá, a ponto de bala, é capaz de apanhar bonito...
-Ui, fiquei toda arrepiada agora.
-É, garota, a perspectiva de uma surrinha sempre deixa a gente esperançosa...

Seguindo os conselhos da amiga, a rabuda chamou o implicante pra jogo. Coincidência ou não, nesse mesmo dia, o hálito de canela deixou outro recadinho lindo em seu orkut, ao que ela respondeu sem esperanças rançosas, pois tinha parado de se preocupar com as gostosas de plantão.

O fato é que os hematomas provenientes do tatame da implicância a envaideceram de tal forma que, dali em diante, perto dela, qualquer potranca não passaria de um picolé de chuchu.

Na versão diet, logicamente.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Cenografia à distância

-Há quanto tempo ele se mudou?
-Dois meses.
-E vocês chegaram a ter algo mais assim íntimo?
-Ficamos no estágio 1.
-Como é o estágio 1?
-Vai dizer que você não sabe?
-Querida, tô casada há vinte anos, o único estágio que ouço falar é o do meu filho...
-Filipinho tá fazendo estágio já?
-Casei grávida né, bonita, esqueceu? Meu filho é um homem feito, pagou jantar pra mim outro dia e tudo, quase chorei de emoção, mas conta, como é o estágio 1?
-Ah, muita conversa, simpatia, sintonia, essas coisas...
-Mas o olhar dele te queima?
-Acho que sim.
-Acha?
-Sim, acho, não sou mulher de tantas certezas.
-É, você tem razão, certo mesmo só as contas que vencem no dia 10, mas conta mais!
-Então, ele pegou meu telefone e a gente tem se falado umas três vezes por semana.
-Quem liga?
-Ele.
-O homem faz três interurbanos por semana sem nem ter beijado sua boca ainda?
-Isso mesmo.
-Geeeeeeeeeente! Sen-sa-cio-nal!
-Pois então, a coisa tá esquentando
-Já vi que alguém vai viajar em breve...
-Ele me diz cada coisa que me deixa num estado...
-Ai, que delícia.
-Teve um dia que tomei umas cervejas e começamos a ter uma conversa assim mais quente, sabe?
-Sei, sexo verbal.
-Exatamente.
-Delícia...
-Daí eu disse pra ele que estava toda molhada.
-E ele?
-Continuou me dando corda até eu ficar numa situação extrema, quase subindo ladrilho de tamanco!
-Ladrilho de tamanco?
-É, explodindo.
-E ele?
-Disse que também estava do mesmo jeito.
-Deus queira que ele não suba ladrilho de tamanco, porque aí poria tudo a perder...
-Não faz gracinha que é sério!
-Tá bem, mas fiquei imaginando o bofe de tamanco e confesso que não foi o melhor pensamento do dia.
-Quer deixar eu terminar de falar?
-Deixo, lindinha, claro!
-Ontem ele veio me dizer que não fica assustado com essas coisas que digo.
-Que ótimo, ponto pra ele! Homem assustado cansa.
-É, mas ele acha que o que eu digo no telefone não é verdade.
-Como assim?
-Ele diz que eu minto por estilo, que minha umidade é cenográfica, que eu fabulo para envaidecê-lo e que, por isso mesmo, ele gosta.
-Nossa! Umidade cenográfica é coisa fina!
-E ainda culminou com a seguinte frase: “como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”
-Adorei esse rapaz, ele arrasou!
-Mas ele não acredita em mim!
-Ele tá querendo te conhecer, amiga, daí diz essas coisas, pra te fazer pensar nele mais e mais. Coisa de homem, aproveita!
-Tá bem.
-Você tá acostumada a ter todas as respostas, né?
-É.
-Então deixa virem as perguntas difíceis, bonita, sem medo!

Ficou pensando nas perguntas escabrosas e nas respostas elaboradas que viriam pela frente. E só então percebeu que em breve comprará uma passagem pra longe de casa e pra dentro de si mesma, em busca de uma cenografia que, de tão bem encenada, pareça real.

E que, de tão real, pareça encenada.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Dicas práticas para nao queimar o filme do gênero feminino numa só noite

Bons rapazes ainda há, ao contrário do que reza a lenda urbana pessimista de nossos tempos. O que está em falta, de fato, é o critério. Esse sim, se estivesse à venda, já teria esgotado há muito. Os pés são a todo instante trocados pelas mãos e as chances de ficar em silêncio, violentamente desperdiçadas. Diálogos deprimentes costumam rondar aquelas horas constrangedoras que se seguem ao sexo casual, geralmente prematuro e não muito gostoso, diga-se de passagem. Um amigo que não direi o nome me contou umas histórias impressionantemente desesperadoras. Pra começar, cabe ressaltar que esse amigo é pitéu, além de talentoso e carinhoso, atributos que o colocam no topo da lista de muitas meninas. Algumas até conseguem dar pra ele. Porém, poucas deixam marcas para além de unhadinhas frívolas. Poucas foi gentileza minha. Nenhuma conseguiu deixar qualquer marca que valesse a lembrança, pra ser mais precisa e menos benevolente (que não estou aqui pra passar a mão na cabeça de mulher que acha que um par de peitos durinhos e uma bucetinha molhada dão conta do recado de ser algo além de uma boneca inflável com pinta de intelectual). Nenhuma, apesar da evolução do pensamento em torno da causa feminina, conseguiu fazer o serviço completo, que na minha época era chamado de barba cabelo e bigode. Não conseguiram e não conseguirão, enquanto se fiarem na encenação e na pseudo-putaria. E, principalmente, enquanto estiverem mergulhadas nas profundezas da falta de assunto.

Agora vamos aos fatos:

. Capítulo Primeiro: Da hidratação

-Tem água na sua casa?
-Sim, claro.
-Você pegaria pra mim? Fico sem jeito de abrir sua geladeira...

Depois de abrir as pernas e deixar a mangueira entrar, esse papo de não abrir a geladeira soa como uma anti-metáfora. Algo que transita entre os dois pesos e as duas medidas.

Dica prática: Parta sempre do pressuposto de que na casa das pessoas tem água potável.

. Capítulo Segundo: Do transporte.

-Você tem telefone de alguma companhia de táxi?
-Sim, claro.
-Teria como ligar pra mim?
-Tem alguns números presos na geladeira.
-Ai, pega pra mim? Fico sem jeito de entrar na sua cozinha...

Mais uma vez a falta de jeito aparecendo como fator determinante.

Dica prática: Ande com telefones de companhias de táxi no celular e pare com esse charminho de artista em fim de carreira.


Capítulo Terceiro: Do preservativo

-Você tem camisinha, né?
-Sim, claro.
-Poderia colocá-la?
-Se você esperar meu pau terminar de ficar duro...

Uma mulher que não conhece o grau de paudurescência necessário para a inserção da camisinha é capaz de acreditar que beijo na boca engravida.

Dica prática: Pau duro não tem esse nome à toa. Encoste e veja por você mesma.

Capítulo Quarto: Da necessidade de provar que não se é burguesa.

-Você gosta de samba?
-Sim, claro.
-Já foi na feijoada da Portela?
-Nunca fui.
-Ai, como você faz isso com você mesmo? Lá é que é samba de raiz, samba de verdade.

Tá bem! Quero ver dançar com os bebuns suados de Madureira sem ficar com nojinho nem medo de ser estuprada.

Dica prática: Quando quiser tirar onda com o gatinho, esqueça o samba. É óbvio demais.

Haveria outros capítulos, mas só esses quatro já me irritaram o suficiente. Porque esse tipo de comportamento denigre anos e mais anos de luta pela liberação sexual e pelos direitos da mulher.

Portanto, se você é ingênua, não pose de puta. Porque ser puta não é pra qualquer uma. Seja você mesma, aí, quem sabe, até sua inexperiência vai ser charmosa.

Mas, por favor, de manhã, depois de um sexo meia-bomba, fique em silêncio.

Guarde seus comentários pras amigas da facu. Elas estão mais acostumadas com isso.

O pilates de Lisandra

Lisandra anda meio cheinha e resolveu voltar a praticar esportes. Começou com as caminhadas matinais, que lhe fazem muito bem, pois a deixam mais bem disposta para encarar o tranco do trabalho, mas ainda lhe faltava algo. Foi quando encontrou Alícia, sua amiga de escola, que sempre foi aquele tipo meio sem tônus, quase flácida. Pois aquela Alicia tinha ficado pra trás, dando lugar a uma deusa grega. Lisandra quase não a reconheceu na rua. Após o estranhamento inicial, travou-se um desabafo frenético, quase coisa de gente bipolar:

-Poxa, mas você está ótima! Nem te reconheci...
-É, né? Nem parece a velha Alicia! Quer saber meu segredo?

Lisandra, enlouquecendo por dentro, mas não querendo dar pinta de invejosa, finge que nem é com ela:

-Ah, querida, essas coisas não se contam....
-Contam, sim, besteira, quero mais é que todo mundo fique gostosa. Afinal, o que é meu tá guardado, né não?
-Isso é verdade, que bom que você pensa assim!
-Então, menina, tudo começou quando descobri que tinha uma hérnia na coluna lombar, queriam até me operar, olha que horror, logo eu, que só de entrar em hospital tenho taquicardia!
-Jesus...
-Pois é, fiz um exame bizonho, desses que te colocam dentro de um tubo, sabe? Olha, pra você ter uma idéia, tiveram que me dar bola preu parar quieta!
-Gente...
-É, isso é só o começo, tá com tempo?
-Tô.
-Ótimo. Daí passei por um monte de ortopedistas, que ficavam vendo meus exames e dizendo que a coisa estava preta e coisa e tal.
-Nossa...
-Pois é. Pra resumir, chegaram à conclusão de que eu tinha que fazer RPG, que era melhor que operar. Fiquei uns 3 meses nessa. Do RPG, me recomendaram aulas de alongamento e pilates. Foi aí que tudo começou a mudar na minha vida.
-Com o pilates?
-Sim, a coisa é impressionante! Vou te dar um exemplo: sabe quando a bunda começa a diminuir antes de cair de vez?
-Sei bem, isso está acontecendo comigo agora.
-Então, é exatamente essa a hora de começar o pilates! Veja bem, a bunda que já diminuiu, não tem mais jeito, paciência! Mas a indefectível, temida e lastimada queda definitiva é interrompida, ou pelo menos adiada por alguns anos, não é fantástico?
-Ah, Alicia, fala sério!
-Eu estou dizendo, acredite em mim, você sabe que eu nunca fui a mais gostosa da turma!

O silêncio que se seguiu foi a resposta mais contundente que Lisandra poderia ter dado à velha amiga de adolescência. Mas, realmente, essa história de fazer a nádega reagir à gravidade lhe interessava. E muito. Afinal de contas, estava começando a namorar um rapaz e ainda não tinha tido a coragem de ir à praia com ele por puro medo do mais chauvinista de todos os hábitos masculinos: o teste da areia.

-Prossiga.
-O lance é simples, tá com tempo mesmo?
-Estou.
-Vamos comigo agora lá na minha academia fazer uma aula experimental, que tal?
-Agora?
-Sim, te empresto uma bermuda, ando sempre com uma extra.
-Tá bem, vamos!

Lisandra até tinha compromissos bem importantes, mas resolveu desligar o celular e simular um imprevisto qualquer, pois entendeu aquele encontro com sua colega de ginásio como coisa do destino.

Nunca contou esse episódio a ninguém. Simplesmente matriculou-se na academia e, duas semanas depois, já estava indo com seu gatinho à praia num fim de tarde. É claro que não houve tempo hábil para o pilates se fazer agir, porque milagre é coisa mais difícil de acontecer.

Mas pelo menos a gravidade parou de agir em sua auto-estima.

O medo de amar

-E aí, cara, beleza?
-Beleza.
-Como é que tá essa força?
-Tudo tranqüilo e você?
-Também, tranqüilão.
-Legal, e a Laurinha, tá bem?
-Tá, sim, cada dia mais linda.
-Pô, tô com a maior saudade dela, vamos marcar de vocês irem lá em casa dia desses.
-Claro, vamos sim!
-E com a mãe dela, tá tudo certo?
-Tá sim, ontem mesmo dormi lá.
-Ah é?
-No sofá, cara!
-Tá certo, viva a pós-modernidade! Mas, vem cá, e a tal menina que você conheceu, como andam as coisas?
-Indo.
-É?
-Sim.
-Vocês têm se falado?
-Mais ou menos
-Existe isso? Se falar mais ou menos?
-Na verdade a gente não se fala desde o carnaval.
-Por quê?
-Eu liguei pra ela e ficamos de nos encontrar, mas não rolou...
-Por que não rolou? Vocês se desencontraram nos blocos?
-Não.
-Então o que foi?
-Eu fiquei de ligar de novo pra marcar aonde iríamos nos encontrar e não liguei.
-Pô, cara, mas do que você tem medo?
-Porra, mas que saco! Essa é a mesma pergunta que ela vive me fazendo!
-E você responde o que a ela?
-Eu nunca consegui responder.
-Mas pelo menos você sabe do que tem medo?
-Tenho medo de me fuder de novo, eu tenho uma filha, não sou um cara livre e desimpedido.
-Sim, mas ela sabe da Laurinha, né?
-Sabe e acha ótimo.
-Caralho, meu irmão, então qual é a porra do problema?
-É esse poder que eu sei que ela pode vir a exercer sobre mim, não sei se agüento esse tranco agora!
-Mas você não acha que ela tem o direito de saber disso?
-Não, porque daí fico fragilizado diante dela.
-Então, prefere simplesmente sumir, como um moleque?
-Eu não sou moleque, porra, eu tô confuso, assustado, sou um monstro por isso?
-Claro que não! Nem foi isso que eu quis dizer, desculpe!
-Eu simplesmente não consigo pegar o telefone e ligar pra ela. Ainda mais agora, depois de tanto tempo, capaz dela nem querer me atender...
-Se ela não quiser te atender, pronto, você vai saber que não tá rolando mais. Simples assim!
-Nem é tão simples como você fala...
-Cara, eu não te vejo tão inquieto há um bom tempo. Isso pode significar que essa moça toca você de alguma forma, né?
-Porra, só de ouvir a voz dela eu fico de pau duro!
-Então, bicho, vai deixar barato assim? Tá dando mole pro azar, meu camarada! Mulher maneira tem muita, mas mulher maneira que te deixa de pau duro só com a voz é mais raro, fala aí!
-Ô!
-Escuta teu cumpadre aqui, pega essa porra desse telefone e liga pra ela. Fala que você tá confuso, que tá com medo de se entregar. Mulher adora ouvir essas coisas, fica sensibilizada, promete até ser mais cuidadosa!
-Tá, mas e se eu me fuder de novo? Você vai bancar o uísque da dor de corno?
-Banco, sim, Black Label, ok?
-Tá bem, vou pensar com carinho nessa situação.
-Mas pensa rápido, senão outro gavião tem a mesma idéia antes de você. Aí, babou...

Depois da conversa, cada amigo foi pro seu lado, a refletir sobre as vicissitudes do coração. Não se sabe ao certo se o moço vai ligar pra moça que deixa ele de pau duro só com a voz.

Porque em terrenos como esse, toda a areia é movediça, e toda sintonia, delicada.
Certo mesmo, só o medo de amar.

Poesia para cegas

-Você viu o cara que botou a mulher na justiça porque ela quebrou o pau dele?
-Como assim? Pau não tem osso...
-Não tem, mas, ainda assim, pode dar uma espécie de destroncada...
-Ah tá! Pior é que pode mesmo...
-Chato, né?
-Super! Mas e aí? O cara ganhou?
-Nada, o juiz disse que ele sabia a situação na qual estava se metendo!
-Literalmente, né!
-Pois é, mas sabe que essa história me fez refletir a respeito do assunto?
-De fato, é uma bela temática.
-Fiquei pensando sobre as coisas que são ditas pelos homens quando eles estão de pau duro...
-Tipo o quê?
-Ah, coisas que nos fazem sentir espetaculares e únicas...
-Mas nós somos espetaculares e únicas, alguém duvida disso?
-A questão não é essa.
-Qual é então?
-Ah, fico às vezes achando que precisamos de um homem para validar nosso apreço por nós mesmas.
-Pára de show, vai! Você deve estar numa TPM violenta...
-Pior é que devo menstruar amanhã ou depois...
-Viu? Quase tudo na vida são os hormônios.
-Tá, mas e se tirarmos os hormônios? Não sobra nenhum sentimento?
-Querida, deixa esse papo de sentimento pra discutir com o seu terapeuta! Eu não tenho cacife pra isso!
-Se duvidar, nem ele tem!
-A questão é: independente do que aconteça entre quatro paredes, temos que estar cientes de que, nessas circunstâncias, o que se diz nem sempre é o que se diz e o que se ouve nem sempre são só palavras...
-Interessante isso...
-A cama nada mais é do que um território com múltiplos significados.
-Poxa, vou dormir pensando nisso!
-Faz isso não! Dorme pensando no Gianechinni, que é mais jogo!

Até tentou pensar no gostoso do Gianechinni antes de dormir, mas não deu. O buraco, definitivamente, era mais embaixo. Mais fundo que os hormônios. Mais perto, portanto, dos sentimentos e das emoções. Queria era descobrir os meandros do misterioso processo que começa na cama e termina nas profundezas de cada um de nós. Estava era tentando enxergar no escuro. Mesmo sabendo que, molhada, toda mulher é uma cega.

E de pau duro, todo homem, um poeta.