-Você tá de onda!
-Não tô, Lívia, ele mandou essa.
-Como é que é? Você e o Bukowski, o quê?
-Que eu, assim como Bukowski no início de carreira, não entendia nada do sexo oposto.
-Disse assim, na lata?
-Na lata, fiquei pretérita!
-Também ficaria...
-Pois é.
-Mas sabe que eu sempre achei meio Bukowski seus textos?
Mentira, Lívia nunca leu sequer uma linha dele. Mas aquela foi a única coisa que pôde dizer naquele momento, já que não se sentia à vontade de comentar com a amiga que o gatinho que ela tá amarradona de dar um confere podia estar personalizando demais suas observações literárias, provavelmente por estar se sentindo vulnerável dentro da relação. Ou por ter um pau muito pequeno. Ou um pouco fino. Enfim, independente do que fosse, era coisa de casal. E, nesses casos, o melhor é que as amigas não metam a colher.
De repente, do nada, surge a pérola:
-Nem te falei uma coisa, ele escreveu um texto pra mim.
-Mesmo?
-Aham.
-E aí? Legal?
-Intenso.
-Mas legal?
-Não sei, tinha uma coisa de esperar, mas não saber por que ou por quem. Uma coisa bonita, mas um pouco ensimesmada demais, sabe?
-Porra, mas você não sabe que ele é ensimesmado? Queria que ele escrevesse uma parada cool?
-Calma, gata!
-Foi mal, mas esse negócio de analisar homem não é fácil.
-Não estamos analisando, estamos comentando.
-Ah, ainda bem que você me avisou! Estamos comentando! Agora sim, entendi tudo!
-Debochadinha...
-Quer a verdade nua e crua?
-Sempre.
-Eu, como sua amiga, diria pra você sair fora desse cara enquanto ainda não deu pra ele e não ficou de quatro.
-Ficar de quatro não é mau, vai...
-Posso continuar?
-Claro.
-Onde eu estava mesmo?
-Na parte que eu ficava de quatro...
-Isso mesmo! Eu estava dizendo que, por outro lado, acho que o ensimesmado vai fazer esse vulcão que tem aí dentro explodir.
-Explodir como?
-Ah, uma coisa lava incandescente, saca?
-...
-Eu tive um cara assim também, ensimesmado, quase canalha, mas adorável.
-Quase canalha?
-Isso mesmo! Me escrevia umas coisas herméticas, tipo isso aí que você falou, de esperar mas não saber por que e nem por quem.
-Jura?
-Juro, isso é coisa que só um escroto adorável faz por você...
-Escroto adorável?
-É, darling, tem um monte deles por aí.
-Mas, vem cá, por que você nunca me contou desse cara?
-Porque se eu for ficar falando tudo que eu já vivi vou ficar parecendo sua tia, o que está longe de ser o caso.
-Você é mais rodada mesmo, qual o problema?
-Rodada é punk!
-Bucetuda, prefere?
-Melhor.
-Tá, bucetuda, diga lá, o que aconteceu com o seu ensimesmado?
-Um dia eu acordei e tive a certeza de que eu precisava de uma pessoa mais tranqüila do meu lado, independente de não ser tão intensa nem tão capaz de falar as coisas mais oportunas nas horas mais sensacionais.
-Sei...
-Uma pessoa que, apesar de não me deixar úmida com um único olhar, não me daria cortes tão secos, não me largaria derrapando na pista, nem me deixaria triste nos dias mais alegres.
-Nossa...
-Por isso não te falei nada, entende? Porque acho que você tem que ser a protagonista dessa história. Todo mundo na vida precisa aprender a decodificar, seduzir, comer e deixar ir pra sempre pelo menos um escroto adorável.
E assim, sem entrarem nos detalhes mais sórdidos, as duas ficaram lá pensando porque não poderiam ter tudo que queriam do jeito que achavam mais gostoso, como quando eram crianças e faziam charme pra Papai Noel.
E, enquanto pensavam, viram que o melhor mesmo era parar de pensar e ir correndo pro videokê do botequim da esquina, que estava pegando fogo, pra tomar uma gelada, comer um queijinho de coalho, morrer de dar risadas e adorar a lua, que transbordava de tão cheia.
Porque canta melhor quem canta pra subir.
domingo, 20 de julho de 2008
sábado, 28 de junho de 2008
O casamento da filha da Dirce
Desde que minhas amigas começaram a parir de forma desenfreada e passei a freqüentar mais aniversários de um ano do que festas de adultos, optei por evitar casamentos, num mecanismo de defesa de minha mente balzaca, já muito permeada por reflexões. Mas, em alguns casos, fica feio faltar. Assim, fui parar no casamento da filha da Dirce, mulher que ajudou a me criar num tempo em que mamãe e papai trabalhavam como mouros pra sustentar quatro filhos. Dirce, além de tomar conta da gente, de dar almoço e de fazer bolo de chocolate, nos enchia de carinho. Tenho a impressão de que ela nem sabe o quanto me ajudou nos tempos de escola, entrando no quarto com suquinho de laranja e pão com ovo mexido. Vinha sempre na hora certa, quando os neurônios queimavam e eu estava começando a me sentir burra. Lembro também de bem pequenininha ir passar os fins de semana com ela na casa de sua família em Campo Grande, com seus mil e quinhentos irmãos, que me levavam pra festa junina, pro parquinho e prum monte de coisas que eu, garota de apartamento, curtia até o caroço. Dirce aturou muita coisa mais: caçula abusada que era, eu, além de fazer xixi na cama, tirava a roupa toda e, daquele jeitinho mesmo, parecendo um sachê de uréia, pedia espaço pra dormir no colchonete dela. Nem preciso dizer que não houve uma única vez que ela não me colocasse pra debaixo da coberta, tão quente como sua risada gorda. Dircinha se casou com o namorado de anos e, quando já tinha parado de trabalhar pra dar mais atenção à família, ficou viúva com dois guris pra criar. Essa foi a única vez que vi seus olhos redondos totalmente sem brilho. Mas essa coisa de filho pra criar é mesmo impressionante e, rapidinho, ela tava de pé de novo, trabalhando pra dar o melhor pros moleques, no meio de um monte de cunhadas que achavam que eram melhores que ela por terem curso superior e marido rico. Devagarzinho, fez seu próprio negócio, formou a menina advogada e botou o garoto na faculdade de farmácia. Mas ontem foi, sem dúvida, seu dia de glória: casou a filha com um rapaz bacana. Quando vi Dirce de longo entrando na Igreja e, logo depois, seu caçula acompanhando a irmã, fazendo as honras do pai, senti um orgulho imenso dela, de sua altivez e de sua incontestável bondade.
Na recepção, enquanto era tratada como madame, ouvi a pergunta de sempre:
-Tá namorando, filha?
-Ih, Dircinha, tá meio difícil...
-Vem pra Campo Grande, ném, aqui tem de sobra.
Esse é o espírito dela, mostrar que sempre tem de sobra. Ela, que cresceu com tão pouco, que deu tanto duro, vem falar de sobra. Mas a hora da verdade veio mesmo quando ela soltou, distraidamente, o valor de seu rendimento mensal, bem maior do que o meu, que tenho duas faculdades e um curso técnico completos.
Essa, sem dúvida, foi a melhor notícia da noite.
Essa é minha Dircinha.
Me deu até vontade de chorar de tanta emoção.
Mas não tava a fim de pagar pra ver se meu rimmel de madame era mesmo à prova d’água.
Na recepção, enquanto era tratada como madame, ouvi a pergunta de sempre:
-Tá namorando, filha?
-Ih, Dircinha, tá meio difícil...
-Vem pra Campo Grande, ném, aqui tem de sobra.
Esse é o espírito dela, mostrar que sempre tem de sobra. Ela, que cresceu com tão pouco, que deu tanto duro, vem falar de sobra. Mas a hora da verdade veio mesmo quando ela soltou, distraidamente, o valor de seu rendimento mensal, bem maior do que o meu, que tenho duas faculdades e um curso técnico completos.
Essa, sem dúvida, foi a melhor notícia da noite.
Essa é minha Dircinha.
Me deu até vontade de chorar de tanta emoção.
Mas não tava a fim de pagar pra ver se meu rimmel de madame era mesmo à prova d’água.
domingo, 22 de junho de 2008
Dó maior
Ele é o último a cumprir com o combinado e o primeiro a ter certeza da própria dúvida.
Tem fadiga pra intimidade e padece de profunda complexidade.
Gosta de dizer que é um cara simples, mas é tudo charme de artista.
Já ela é a primeira a fazer justiça com as próprias mãos e a última a duvidar de que ele um dia vai perder o medo do escuro.
Tem síndrome do pânico e padece de alergia a mentiras homeopáticas.
Gosta de dizer que é uma mulher forte, mas é tudo da boca pra fora.
Juntos, são mais separados do que notas dissonantes numa sinfonia em homenagem às almas dormentes.
Sinfonia em dó maior.
De mãos atadas.
E unhas curtas.
Tem fadiga pra intimidade e padece de profunda complexidade.
Gosta de dizer que é um cara simples, mas é tudo charme de artista.
Já ela é a primeira a fazer justiça com as próprias mãos e a última a duvidar de que ele um dia vai perder o medo do escuro.
Tem síndrome do pânico e padece de alergia a mentiras homeopáticas.
Gosta de dizer que é uma mulher forte, mas é tudo da boca pra fora.
Juntos, são mais separados do que notas dissonantes numa sinfonia em homenagem às almas dormentes.
Sinfonia em dó maior.
De mãos atadas.
E unhas curtas.
domingo, 15 de junho de 2008
Fora da área de cobertura
-Amiga, tá podendo falar?
-Tô aqui vendo um filme na TV, mas diga lá!
-Olha a situação: tava aqui no Mineiro com Clarinha, tomando umas, daí chega Alexandre naquele esquema “não é porque a gente não namora mais que eu não posso ser seu amigo nem ficar me lamentando com suas amigas, como bom coitadinho que sou”, sabe assim?
-Ui, sei.
-Pois então, sentou na nossa mesa e não vai embora nem fudendo, tanto que foi até pegar um casaco no carro.
-Vixe, quem pega casaco no carro quer ficar até de manhã...
-Então, só preciso de um telefonema seu urgente daqui a 5 minutos, do tipo “se você não vier agora me ver, eu me mato”!
-Pode deixar, mas porra, toda vez que você vai ao Mineiro o mala do Alexandre aparece! Não sei por que insiste em ir praí! Na boa, parece até que tá querendo encontrar com o cara!
-Bonita, isso não vem ao caso agora, ok? Me liga, que depois de escapar dele, a gente compra umas latinhas e vai pra sua casa, pode ser?
-Lógico!
Em 10 minutos, Clarinha, na maciota, começa a encenação:
-Acho que seu celular tá vibrando, Anita.
-Ih é! Gente, nem percebi.
-Não atende não! Que saco, deve ser esse povo do seu trabalho!
-Deixa eu ver. Ih, é a Fê.
-Então atende, né? Posso pedir mais uma?
Em uníssono, Anita (já com o aparelho no ouvido) e Alexandre, concordam:
-Pede!
Clarinha só levanta o dedo indicador, num gesto universal indicativo de que a cerveja precisa ser reposta na mesa.
Nisso, Fernanda, que teve de deixar seu filmezinho lavagem cerebral de lado pra participar do joguinho da amiga, cumpre com o combinado de tirá-la daquela situação. Sem, é claro, perder a chance de dar aquela sacaneada básica:
-E aí, Anita, tô ligando na hora combinada, viu?
-Oi, Fêzinha, que que mandas, amiga?
-Você sabe o que eu mando, vaca! Faz cara de sofredora agora, pra ver se convence alguém!
-Jura? Mas quando foi isso?
-Quando foi o que, sua falsa? Se vira, inventa uma história decente!
-Não, querida, não chora, que ele não vale isso tudo.
-Gente, você é uma atrizinha de quinta, hein, vou te falar!
-Ai, amiga, se você quiser que eu vá praí agora, eu vou!
-Vem, e vê se traz uma vodca decente dessa vez!
-Não, não vai atrapalhar nada, tô tomando uma aqui com a Clarinha. O Alexandre até apareceu, acredita?
-Que coincidência né, menina? Manda um beijo presse péla-saco!
-Não, querida, eles vão entender, fica tranqüila! Em meia hora tô aí, é só o tempo de fechar a conta e deixar Clarinha em casa, tá bem? Ou você quer que ela vá também?
Logo depois, desliga e, com o semblante compassivo, dá sua grande fala:
-Fernanda mandou um beijo pra vocês. Gente, desculpa, mas preciso ir, ela acabou de terminar com o namorado, tá péssima. Vou comprar uma vodka e dar uma assistência até ela vomitar e capotar, saca?
Clarinha, em busca do Oscar de coadjuvante, completa:
-Será que ela quer me ver também?
-Não amiga, infelizmente, essa eu que vou ter que segurar sozinha...
-Força, então, vai dar tudo certo!
-Quer uma carona?
-Quero.
Alexandre, num misto de entendimento e perplexidade, leva as moças até o carro. Como candidato à vaga de péla-saco do século, dá sua cartada final:
-Se você quiser, Anita, eu posso levar Clarinha em casa, pra você chegar logo na Fê. Nessas horas, quanto mais rápido se age, melhor, né? Vai que ela faz alguma besteira...
-Precisa não, querido, mas obrigada pela força, viu?
Alexandre voltou pro bar, provavelmente à caça de alguma ex-namorada pra impregnar antes de ir pra casa assistir ao Fantástico e bater uma punhetinha pensando em Anita.
Já as meninas, foram encontrar com a Fê, pra beber mais, falar mal dos homens e tentar entender porque moças como elas não gostam de rapazes como Alexandre, sempre dispostos a dar carona, a pegar casacos no carro e a pagar a conta.
Para moços assim, estavam sempre fora da área de cobertura.
Ou desligadas.
-Tô aqui vendo um filme na TV, mas diga lá!
-Olha a situação: tava aqui no Mineiro com Clarinha, tomando umas, daí chega Alexandre naquele esquema “não é porque a gente não namora mais que eu não posso ser seu amigo nem ficar me lamentando com suas amigas, como bom coitadinho que sou”, sabe assim?
-Ui, sei.
-Pois então, sentou na nossa mesa e não vai embora nem fudendo, tanto que foi até pegar um casaco no carro.
-Vixe, quem pega casaco no carro quer ficar até de manhã...
-Então, só preciso de um telefonema seu urgente daqui a 5 minutos, do tipo “se você não vier agora me ver, eu me mato”!
-Pode deixar, mas porra, toda vez que você vai ao Mineiro o mala do Alexandre aparece! Não sei por que insiste em ir praí! Na boa, parece até que tá querendo encontrar com o cara!
-Bonita, isso não vem ao caso agora, ok? Me liga, que depois de escapar dele, a gente compra umas latinhas e vai pra sua casa, pode ser?
-Lógico!
Em 10 minutos, Clarinha, na maciota, começa a encenação:
-Acho que seu celular tá vibrando, Anita.
-Ih é! Gente, nem percebi.
-Não atende não! Que saco, deve ser esse povo do seu trabalho!
-Deixa eu ver. Ih, é a Fê.
-Então atende, né? Posso pedir mais uma?
Em uníssono, Anita (já com o aparelho no ouvido) e Alexandre, concordam:
-Pede!
Clarinha só levanta o dedo indicador, num gesto universal indicativo de que a cerveja precisa ser reposta na mesa.
Nisso, Fernanda, que teve de deixar seu filmezinho lavagem cerebral de lado pra participar do joguinho da amiga, cumpre com o combinado de tirá-la daquela situação. Sem, é claro, perder a chance de dar aquela sacaneada básica:
-E aí, Anita, tô ligando na hora combinada, viu?
-Oi, Fêzinha, que que mandas, amiga?
-Você sabe o que eu mando, vaca! Faz cara de sofredora agora, pra ver se convence alguém!
-Jura? Mas quando foi isso?
-Quando foi o que, sua falsa? Se vira, inventa uma história decente!
-Não, querida, não chora, que ele não vale isso tudo.
-Gente, você é uma atrizinha de quinta, hein, vou te falar!
-Ai, amiga, se você quiser que eu vá praí agora, eu vou!
-Vem, e vê se traz uma vodca decente dessa vez!
-Não, não vai atrapalhar nada, tô tomando uma aqui com a Clarinha. O Alexandre até apareceu, acredita?
-Que coincidência né, menina? Manda um beijo presse péla-saco!
-Não, querida, eles vão entender, fica tranqüila! Em meia hora tô aí, é só o tempo de fechar a conta e deixar Clarinha em casa, tá bem? Ou você quer que ela vá também?
Logo depois, desliga e, com o semblante compassivo, dá sua grande fala:
-Fernanda mandou um beijo pra vocês. Gente, desculpa, mas preciso ir, ela acabou de terminar com o namorado, tá péssima. Vou comprar uma vodka e dar uma assistência até ela vomitar e capotar, saca?
Clarinha, em busca do Oscar de coadjuvante, completa:
-Será que ela quer me ver também?
-Não amiga, infelizmente, essa eu que vou ter que segurar sozinha...
-Força, então, vai dar tudo certo!
-Quer uma carona?
-Quero.
Alexandre, num misto de entendimento e perplexidade, leva as moças até o carro. Como candidato à vaga de péla-saco do século, dá sua cartada final:
-Se você quiser, Anita, eu posso levar Clarinha em casa, pra você chegar logo na Fê. Nessas horas, quanto mais rápido se age, melhor, né? Vai que ela faz alguma besteira...
-Precisa não, querido, mas obrigada pela força, viu?
Alexandre voltou pro bar, provavelmente à caça de alguma ex-namorada pra impregnar antes de ir pra casa assistir ao Fantástico e bater uma punhetinha pensando em Anita.
Já as meninas, foram encontrar com a Fê, pra beber mais, falar mal dos homens e tentar entender porque moças como elas não gostam de rapazes como Alexandre, sempre dispostos a dar carona, a pegar casacos no carro e a pagar a conta.
Para moços assim, estavam sempre fora da área de cobertura.
Ou desligadas.
quarta-feira, 28 de maio de 2008
A primeira vez
-Tem certeza que você nunca fez isso, Clara?
-Tenho.
-Nem beijinho inocente numa amiguinha da escola?
-Cara, pra você ter uma idéia, na escola eu era tipo Carmelita Descalça, não comia ninguém e tinha medo até de falar no assunto.
-Sei.
-Por que eu mentiria pra você?
-Nem um beijinho?
-Só uma vez, no bloco de carnaval, coisa alegórica.
-E aí?
-Achei meio com gosto de isopor.
-Hahahahahahaha.
-Sério!
-Mas então por que isso agora?
-A questão não é essa. Eu achei você linda e você ficou me tentando a noite inteira.
-Eu e o dono da festa.
-Mas o dono da festa é igual a quatrocentos outros. Fala coisas previsíveis de forma previsível no momento mais previsível de todos.
-Esquema show de obviedades, né?
-Exatamente.
-Esses meninos parece que ensaiam uma coreografia onde os passos ousados são proibidos.
-Pois é...
-Mas você não vive sem eles, né?
-Por enquanto ainda não consegui um meio de ser emocionalmente auto-suficiente.
-Me diga uma coisa: você se masturba com freqüência?
-Claro.
-Com essa unha? Duvido.
-Qual o problema da minha unha? É grande, e daí?
-Unha grande é uma coisa! Isso aí é um abridor de lata adaptado pra buceta!
-Nossa, Sarah, que lirismo...
-Fora de brincadeira agora, você sabe que eu sou casada, né?
-Que nem o dono da festa.
-Hahahahahahha.
-Você sempre ri de tudo assim?
-É o jeito, baby.
-Vem cá, vem.
-Eu juro que estou morrendo de medo dessa sua unha.
-Jesus, me dá uma lixa então ao invés de ficar nessa reclamação!
-Você é uma lasciva!
-Nunca disse o contrário...
As palavras enfim deram espaço pras linguagens não-verbais de largo alcance.
Foi então que Clara percebeu a grande diferença entre beijar uma mulher em pé, no meio do bloco, e se deitar com outra, em completo silêncio.
Ainda que, em ambos os casos, seja tudo carnaval.
-Tenho.
-Nem beijinho inocente numa amiguinha da escola?
-Cara, pra você ter uma idéia, na escola eu era tipo Carmelita Descalça, não comia ninguém e tinha medo até de falar no assunto.
-Sei.
-Por que eu mentiria pra você?
-Nem um beijinho?
-Só uma vez, no bloco de carnaval, coisa alegórica.
-E aí?
-Achei meio com gosto de isopor.
-Hahahahahahaha.
-Sério!
-Mas então por que isso agora?
-A questão não é essa. Eu achei você linda e você ficou me tentando a noite inteira.
-Eu e o dono da festa.
-Mas o dono da festa é igual a quatrocentos outros. Fala coisas previsíveis de forma previsível no momento mais previsível de todos.
-Esquema show de obviedades, né?
-Exatamente.
-Esses meninos parece que ensaiam uma coreografia onde os passos ousados são proibidos.
-Pois é...
-Mas você não vive sem eles, né?
-Por enquanto ainda não consegui um meio de ser emocionalmente auto-suficiente.
-Me diga uma coisa: você se masturba com freqüência?
-Claro.
-Com essa unha? Duvido.
-Qual o problema da minha unha? É grande, e daí?
-Unha grande é uma coisa! Isso aí é um abridor de lata adaptado pra buceta!
-Nossa, Sarah, que lirismo...
-Fora de brincadeira agora, você sabe que eu sou casada, né?
-Que nem o dono da festa.
-Hahahahahahha.
-Você sempre ri de tudo assim?
-É o jeito, baby.
-Vem cá, vem.
-Eu juro que estou morrendo de medo dessa sua unha.
-Jesus, me dá uma lixa então ao invés de ficar nessa reclamação!
-Você é uma lasciva!
-Nunca disse o contrário...
As palavras enfim deram espaço pras linguagens não-verbais de largo alcance.
Foi então que Clara percebeu a grande diferença entre beijar uma mulher em pé, no meio do bloco, e se deitar com outra, em completo silêncio.
Ainda que, em ambos os casos, seja tudo carnaval.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
A primeira linha
Ele disse que escreveu a primeira linha e nada mais.
Disse também que o futuro estava sendo feito e que o passado não cabia na garganta.
Tinha autoridade pra afirmar que no final um bom chá de camomila tudo resolveria.
Já ela, carregada de hipóteses e parábolas, estava pra lá da nonagésima frase.
Tomando vinho tinto barato como quem saboreia voz rascante de atiçar pescoço branco saudoso.
Na linha de frente, jaz o arrepio.
Disse também que o futuro estava sendo feito e que o passado não cabia na garganta.
Tinha autoridade pra afirmar que no final um bom chá de camomila tudo resolveria.
Já ela, carregada de hipóteses e parábolas, estava pra lá da nonagésima frase.
Tomando vinho tinto barato como quem saboreia voz rascante de atiçar pescoço branco saudoso.
Na linha de frente, jaz o arrepio.
sábado, 26 de abril de 2008
Os braços fortes
Quando não tenho trampo nem pilates nem sobrinho na porta do quarto perguntando “Tia Poli já acordou?”, gosto de me dedicar a um esporte mais que radical: dormir profissionalmente. Às vezes, num misto de insanidade e auto-punição, coloco o despertador pra tocar, abro os olhos, agradeço a Deus poder dormir por tempo indeterminado e volto para Morpheu que, se de carne e osso fosse, se daria muito bem comigo, porque me amarro naqueles braços fortes e imprevisíveis.
Dia desses, enquanto jazia tranqüila, tive um sonho mais que tórrido com Marcelo, um ex-ficante dos tempos de putaria agressiva. No sonho ele era ele mesmo, só que aditivado com dez doses de catuaba na veia, coisa de enrubescer Dercy Gonçalves e Aracy de Almeida numa só tacada. E o pior de tudo: eu negava fogo. Sinceramente, negar fogo pra homem atiçado é pior do que o leite derramado em vão por oitocentas vacas profanas. Acordei mal. Sempre me orgulhei de minha putice e na hora do vamo vê, da finalização, do atendimento ao cliente, estava eu lá, posando de virgem dos lábios de mel. Claro que faço isso de vez em quando, mas aí já é receio de dar pra qualquer amigo e estragar uma relação maneira por uma trepadinha tola.
Porém, esse não era o caso, porque esse ex costumava me comer com o devido desrespeito necessário às fodas bem-sucedidas. No dia seguinte, quase liguei pra ele. Mas Sofia, amiga que atura minhas confissões de gaveta há mais de 13 anos, foi firme:
-Não liga não, bonita, não carece.
-Ah, acho que ele vai ficar envaidecido.
-Fala sério, você não tá nem aí pro ego dele, só quer dar pro cara!
-É, né?
-Gata, é melhor alugar um homem do que ligar pra Marcelo.
-Nossa, que radicalismo...
-Você reclamava dele à beça, dizia que ele era um confuso...
-É, ele pagava de assustadinho da Estrela.
-Porra, na boa, mulher que dá pala pra assustado não merece perdão!
-Ele não é um babaca, vai.
-Ih, começou a usar os verbos no tempo presente, que perigo...
-Ele não morreu, uai!
-Não é porque ele tá vivo que virou o cara mais maduro da atualidade, baby.
-Você tem razão, é que ando achando todo mundo tão mais ou menos...
-Mas é isso mesmo, a estética da mediocridade é avassaladora, poucos se salvam.
-E aí, como se faz?
-Não faz, compra pronto!
-Hahahahahahaha! Você tá me sugerindo um garoto de aluguel, né?
-Eu não disse isso!
-Não disse, mas pensou...
-Penso nisso há um tempo.
-Aham...
-Tenho uma proposta pra te fazer, inclusive.
-Jesus...
-Sabe a Cassandra, que estudou com a gente no BRASAS?
-Claro que sei.
-Então, ela alugou um ótimo e quer passar a indicação pra gente.
-Putz, pagar por sexo é um pouco demais!
-Ué, você vive rachando conta de motel, não é a mesma coisa?
-Claro que não, rachar motel é normal!
-Normal porra nenhuma!
-Tem razão, não é normal porra nenhuma! Acho que já me acostumei com essa realidade.
-É triste depois de abrir as pernas ter que abrir a carteira...
-Não dramatiza também, vai, a gente só conhece homem duro, não dá pra exigir camarões grelhados e champagne no balde de gelo...
-Tá certo, vamos continuar fingindo que isso tudo não é com a gente...
-Melhor regular as doses de realidade senão a gente pira, belona.
Fui pra casa pensando na aspereza das situações que a vida nos imputa e cheguei mais uma vez à conclusão de que alugar um homem é muito hardcore pro meu rockzinho progressivo. Não sou mulher disso nem nunca vou ser. O fato é que aquele papo todo me deu um sono fudido. Tomei uma taça de vinho suave (porque não faço a linha refinada), quarenta gotas de tintura de valeriana e parti pros únicos braços fortes disponíveis no momento.
Pelo menos não teria que abrir a carteira depois.
Dia desses, enquanto jazia tranqüila, tive um sonho mais que tórrido com Marcelo, um ex-ficante dos tempos de putaria agressiva. No sonho ele era ele mesmo, só que aditivado com dez doses de catuaba na veia, coisa de enrubescer Dercy Gonçalves e Aracy de Almeida numa só tacada. E o pior de tudo: eu negava fogo. Sinceramente, negar fogo pra homem atiçado é pior do que o leite derramado em vão por oitocentas vacas profanas. Acordei mal. Sempre me orgulhei de minha putice e na hora do vamo vê, da finalização, do atendimento ao cliente, estava eu lá, posando de virgem dos lábios de mel. Claro que faço isso de vez em quando, mas aí já é receio de dar pra qualquer amigo e estragar uma relação maneira por uma trepadinha tola.
Porém, esse não era o caso, porque esse ex costumava me comer com o devido desrespeito necessário às fodas bem-sucedidas. No dia seguinte, quase liguei pra ele. Mas Sofia, amiga que atura minhas confissões de gaveta há mais de 13 anos, foi firme:
-Não liga não, bonita, não carece.
-Ah, acho que ele vai ficar envaidecido.
-Fala sério, você não tá nem aí pro ego dele, só quer dar pro cara!
-É, né?
-Gata, é melhor alugar um homem do que ligar pra Marcelo.
-Nossa, que radicalismo...
-Você reclamava dele à beça, dizia que ele era um confuso...
-É, ele pagava de assustadinho da Estrela.
-Porra, na boa, mulher que dá pala pra assustado não merece perdão!
-Ele não é um babaca, vai.
-Ih, começou a usar os verbos no tempo presente, que perigo...
-Ele não morreu, uai!
-Não é porque ele tá vivo que virou o cara mais maduro da atualidade, baby.
-Você tem razão, é que ando achando todo mundo tão mais ou menos...
-Mas é isso mesmo, a estética da mediocridade é avassaladora, poucos se salvam.
-E aí, como se faz?
-Não faz, compra pronto!
-Hahahahahahaha! Você tá me sugerindo um garoto de aluguel, né?
-Eu não disse isso!
-Não disse, mas pensou...
-Penso nisso há um tempo.
-Aham...
-Tenho uma proposta pra te fazer, inclusive.
-Jesus...
-Sabe a Cassandra, que estudou com a gente no BRASAS?
-Claro que sei.
-Então, ela alugou um ótimo e quer passar a indicação pra gente.
-Putz, pagar por sexo é um pouco demais!
-Ué, você vive rachando conta de motel, não é a mesma coisa?
-Claro que não, rachar motel é normal!
-Normal porra nenhuma!
-Tem razão, não é normal porra nenhuma! Acho que já me acostumei com essa realidade.
-É triste depois de abrir as pernas ter que abrir a carteira...
-Não dramatiza também, vai, a gente só conhece homem duro, não dá pra exigir camarões grelhados e champagne no balde de gelo...
-Tá certo, vamos continuar fingindo que isso tudo não é com a gente...
-Melhor regular as doses de realidade senão a gente pira, belona.
Fui pra casa pensando na aspereza das situações que a vida nos imputa e cheguei mais uma vez à conclusão de que alugar um homem é muito hardcore pro meu rockzinho progressivo. Não sou mulher disso nem nunca vou ser. O fato é que aquele papo todo me deu um sono fudido. Tomei uma taça de vinho suave (porque não faço a linha refinada), quarenta gotas de tintura de valeriana e parti pros únicos braços fortes disponíveis no momento.
Pelo menos não teria que abrir a carteira depois.
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