Valentina tem uma filha adolescente e já percebeu que hoje em dia essa moçadinha - não sabemos se por culpa das novelas, da internet ou das propagandas de guaraná - está com os hormônios turbinados. Ou seja, o que nós aos quinze estávamos começando a pensar em fazer, as garotas de hoje, aos treze, já fazem há tempos.
Portanto, na tentativa de não ser avó tão cedo, jogou seu apelo de mãe:
-Querida, queria falar uma coisa com você.
-Não é sobre sexo não, né, mamita? Que essa semana a gente já teve que colocar camisinha em banana na aula de educação sexual. Mó mico!
Ok, a menina estudava numa escola ‘cabeça’ pra filho de artista, mas, apesar desse negócio de colocar camisinha em banana ser até bem legal, não é garantia de que a mesma será embrulhada de fato na hora do vamo ver, ainda mais ali, ambiente construtivista, cheio de recantos propícios para o plantio de frutas sem casca.
Pra se fazer de relaxada, foi só dando corda:
-Acredito que tenha sido mico mesmo fazer isso na frente dos meninos.
-É, e ainda por cima, fiquei no grupo do Matheus, ninguém merece...
-Ah, é?
-É, e ele ficou me zuando.
-Por quê?
-Disse que eu não tava acostumada a comer banana. Ainda falou altão, pra geral ouvir!
-Que idiota.
-Mas eu não deixei barato, não! Falei: é, eu posso até não estar acostumada com banana, mas, ainda assim, dispensaria a sua, mesmo que fosse a última do mundo!
-Hahahahahahahahahahaha! Boa!
-Ele se acha só porque namorou a Vanessa no ano passado e porque ela levava ele pra tudo quanto era show do pai dela.
-Grande coisa.
-Pois é. Sou mais meu pai, que me levava no ballet, esperava a aula acabar e ainda me dava sorvete de pistache depois.
-Seu pai era um homem bom mesmo.
-É...
-Então, filhinha, o que eu tenho pra te falar tem um pouco a ver com isso.
-Com papai?
-Num certo sentido, sim, porque ele costumava dizer, quando você tinha uns dez anos, que na hora que seus peitinhos começassem a aparecer, teríamos que te fazer uma pergunta importantíssima.
-Qual?
-O que separa a cabeça do resto do corpo?
-Como?
-A pergunta é essa: o que separa a cabeça do resto do corpo?
-Fácil! O pescoço.
-Quase.
-Como quase? Óbvio que é o pescoço!
-Aí é que você se engana: quem separa a cabeça do resto do corpo é o ombro, não o pescoço!
-Tá! Beleza! Mas o que isso tem a ver com os meus peitinhos?
-Absolutamente tudo.
-Por quê?
-Porque piroca não tem ombro!
-Quê???
-Acompanha meu raciocínio: se é o ombro que separa a cabeça do resto do corpo, e piroca não tem ombro, não existe essa história, que você já deve ter ouvido dos meninos, de colocar só a cabecinha, entendeu? Eu mesma conheço muita criança que veio ao mundo em virtude do fatídico “foi só a cabecinha...”.
-Caraca, mãe, de onde você tirou isso??? E piroca é uma palavra muito feia! Eca!
-Calma, deixa eu terminar meu raciocínio!
-Ok...
-Toda vez, mas toda vez, que você estiver com um menino e ele vier com esse papo, você coloca uma camisinha nele. Se ele disser que sem camisinha é mais gostoso e que você é livre pra fazer o que quiser, já que é uma menina moderna, recolha sua bucetinha e embrulhe pra presente, porque o que não vai faltar é garoto querendo pegar senha pra sair com você, combinado?
-Combinado, mas, mãe, bucetinha é muito feio também!
-Você prefere chamar de quê?
-De pênis e vagina! Óbvio!
-São os nomes corretos, mas muito científicos, não?
-Mas eu sou uma cientista, esqueceu do prêmio que eu ganhei na feira de ciências do ano passado?
-Como eu ia esquecer, garota?
-E, ainda por cima, quando eu crescer, eu vou ser neurocirurgiã, daí, vou ter que usar palavras de cientista toda hora, né, não? É melhor ir treinando desde já.
-Tá certo, cientista, chama do que você quiser, tá bem?
-Por que você não pergunta logo o que quer saber?
-Porque fazer pergunta é muito mais difícil do que dar respostas.
-...
-E, além do mais, eu posso até não parecer, mas sei das coisas, entendeu?
-Tendi.
-De qualquer forma, nunca é demais falar o quanto é bom evitar bananas sem casca, pelo menos por enquanto, não só por conta de neném, mas por um monte de coisa ruim que pode acontecer.
-Sei, as DSTs! Ai, mãe, parece até que eu sou criança!
-É, né? Papo brabo esse meu.
-Nojento, mas por outro lado é sempre bom lembrar do papito, né?
-Muito. Aliás, bora tomar um sorvete?
Escolheram pistache por pura nostalgia e sabiam, lá no fundo, que o sorvete era mero pretexto pra continuarem, como quem não queria nada, o papo sobre meninos e suas angulosas formas de sempre conseguirem o que querem de nós.
Afinal, garota que perde pai cedo demais, precisa de mãe que explique bem direitinho por que banana tem vitamina, engorda e faz crescer.