quarta-feira, 10 de março de 2010

A horta (pro Clube da Leitura)

Muito antes de optar pela medicina, Armando, proctologista renomado, já tinha curiosidade sobre as partes do corpo que não pegam sol. Como gosta muito do que faz, encontra sérias dificuldades em se desligar do hospital, chegando, por vezes, a dar plantões de quarenta e oito horas. Quem mais sofre com isso é Clara, sua esposa, que, para se impor, cobra o preço pela ausência de seu personal fucker no exato momento em que ele põe os pés em casa. Para evitar atritos desnecessários, o devoto e bem-dotado esposo paga tudo numa moeda que só pode ser medida em gemidos e sussurros.

O fato é que não podiam reclamar, pois tinham, em média, quatro relações sexuais por semana, incluindo, naturalmente, a boca de cena e o backstage. A princípio, Clara nem gostava das investidas por trás, mas, por pura cumplicidade, deixava a coisa acontecer, pois sabia que Armando tinha muita dificuldade em separar o trabalho do lazer. Assim, sem perceberem, já tinham completado dez anos de bem-sucedida anatomia em braile. Que o Greenpeace não nos ouça, mas, por vezes, chegavam a extrapolar no quesito euforia e cometiam a desfaçatez de transar com o chuveiro elétrico ligado. No fundo, no fundo, isso muito os excitava, até mesmo porque esse negócio de ser certinho demais tem uma hora que começa a ficar cafona.

Apesar do aparente equilíbrio de forças, Armando guardava dentro de si o desejo velado de manobras em sua retaguarda, mas tinha medo de pedir isso à esposa. Afinal, mesmo topando um contra-fluxo numa via que, em tese, é somente de mão única, Clara era uma mulher radical e achava que seus anelares tinham sido feitos apenas para carregar alianças, pregar botões e fazer cafuné no maridão. Qualquer coisa além disso não passava de perversão.

Já Armando, por mais que se debruçasse em livros e compêndios sobre o assunto, não conseguia encontrar um motivo fisiologicamente coerente para explicar sua vontade. Chegava a perder o sono tentando achar uma forma de dizer à mulher que, apesar de muita nota dez na faculdade, não se importava em ser reprovado num eventual teste da farinha. Enquanto não encontrava os melhores argumentos, ia se distraindo com os legumes orgânicos comprados na feira ao lado de casa. Tudo ia muito bem até chegar o dia em que, pro seu azar, foi surpreendido pela esposa justo na hora em que semeava um pepino japonês em terreno pouco ortodoxo. Depois do choque inicial e de três meses pedindo desculpas, parou de tentar reconquistá-la, pois entendia o companheirismo também como tolerância ao diferente. E, se ela não conseguia perdoá-lo, era porque não o aceitava por inteiro. Assim, sem olhar pra trás, recolheu seu inhame e pediu à esposa que fosse despejar aquele agrotóxico em outra horta, pois, definitivamente, tanta discussão tinha lhe tirado o apetite.

Depois dessa xepa, refestelado em sua cama vazia, Armando procurou algo de útil na TV e só conseguiu encontrar programas de culinária. Resignado, parou de zapear e, em meio a ingredientes e receitas, sentiu uma paz incrível ao se dar conta de que cu doce só serve mesmo como sobremesa de pica.

3 comentários:

o que é semiótica? disse...

vade retro, valha-me deus...nossa poli.rsrsrs...com ou sem agrotóxico, esse conto e essa comida é pesada e indigesta. Mas como sempre, me diverti muito e adorooo qd vc pega pesado nega!!! parabéns!!! bjs

Elga Arantes disse...

"...deixava a coisa acontecer, pois sabia que Armando tinha muita dificuldade em separar o trabalho do lazer." muito boa analogia!!!

A moral da história também foi "providencial" (tomara que não seja sacrilégio).

Anônimo disse...

Passo fácil no teste da farinha, mas nem por isso desgostei da crônica.