domingo, 9 de maio de 2010

A lavanderia


*imagem: Revista Mirroir



O cenário é a casa de uma. A bebida, o vinho da outra. O motivo do encontro não tinha ficado muito claro pra nenhuma das duas, mas era o que menos importava. Há mais ou menos trinta minutos, uma delas monologava sobre como o roçar de pés com o ex-namorado durante a conchinha pós-coito lhe aquecia as entranhas.

Nesse momento, a que ouvia se arrisca no verbo, rumo ao abismo das coisas indizíveis.

-De repente isso aí é saudade.
-Sabia que a saudade é um substantivo tão abstrato, mas tão abstrato, que só tem na língua portuguesa?
-Mas já?
-Já o quê?
-Já mudou de assunto?
-Como assim?
-Amiga, você pelo menos ouviu o que eu te disse?
-Que isso é saudade?
-Sim!
-Menos, darling.
-Não quer falar sobre a questão, né?
-Não, que isso nem é assunto.
-Sei.
-Será que você sabe mesmo? Porque é fácil falar que eu tô fugindo dessa ou daquela situação, quero ver é se colocar no meu lugar.
-Vamos abafar o caso, ok? Escuta, você soube do Alexandre?
-Qual Alexandre? O que namorou Vânia?
-Não, o que foi casado com Marília.
-Como assim, foi casado? Eles se separaram?
-Não sabia?
-Não, aconteceu algo?
-Ninguém sabe, parece que foi amigável a coisa.
-Menina, os casamentos estão se desmanchando numa velocidade, né?
-É...
-Qual foi?
-Nada, gata, só tô refletindo sobre o que você disse.
-Sinto uma certa falta, ok, mas não dele, e sim do que ele representou por um determinado espaço de tempo. E daí? Isso faz de mim uma sofredora, uma fraca ou o quê?
-Não faz de você nada, amiga, essa sensação de fracasso é normal, pelo menos nesse momento inicial, afinal, tem quanto tempo que vocês terminaram?
-Vai fazer dois meses amanhã.
-Tá vendo?
-Ainda tô no prazo de validade da melancolia, né?
-Não sei se é isso.
-É o quê, então?
-Não sei se existe um prazo de validade pressas coisas, só sei que é sempre melhor quando tudo se encaixa perfeitamente e o desfecho é incrível, mas o fato é que não rola sapatinho de Cinderela tamanho 39, né, amada?
-Hahahahahaha.
-Ri não, meu pé aumentou muito depois de adulta. Eu era 37, depois fui ficando 38. Agora, tênis pra caminhar, só 39. Pensa na situação. Daqui a pouco tô passando de travesti nas sapatarias.
-De todo modo, curti a metáfora da Cinderela.
-Não é metáfora, é realidade.
-Ah, para de pessimismo, bonita, que isso é gênero que você faz!
-Falta só fazer o número e o grau agora, pra completar a trilogia da concordância, que tal?
-Você não existe.
-Existirmos, a que será que se destina?

Pelo visto, a roupa suja ia continuar sendo lavada madrugada adentro, que esse negócio de negação é até bacana nas vernissages do pessoal cool, mas extremamente cafona entre aquelas duas.

Afinal, se a fila anda e o caixa é rápido, é preciso ter a consciência bem trabalhada de que o coração é um músculo involuntário só até a página dois.

E de que quem passa imagem é scanner.

5 comentários:

rodrigo de roure disse...

parece que os casamentos da nossa geração duram três anos somente. com dois anos começa a crise. repara só. se passam dos três anos, talvez resistam pra algum lugar. rsrsrs.

acho que essas visitas em blogs podem render uma história e tanto, não? já pensou, poli?

Marina disse...

pode crer.

Marina disse...

adorei.

Marina disse...

como sempre...

Juju disse...

Cinderela não calça mais nem o 36...