quarta-feira, 16 de março de 2011

Choque de ordem (pro Clube da Leitura)


imagem via alaaleali.tumblr.com

Nunca foi novidade pra ninguém que o carnaval e seu exercício de desprendimento fazem com que a vida fique menos óbvia e, nessa de fugir do óbvio, muita gente perde a dignidade, o caminho de casa e a memória. Por conta disso, alguma coisa vem impedindo que Eleonora entre no perfil do facebook do ruivinho fantasiado de tropa de elite com quem trocou fluidos no Cordão do Bola Preta. A timidez nesse caso deve estar relacionada ao sumiço do rapaz logo após a dura, ou, quem sabe, à fala de seu terapeuta, a bradar que esse negócio de se apaixonar por homens que a beijam e vão embora é a repetição de padrões comportamentais que a acompanham desde que o mundo é mundo. Que nenhuma feminista nos ouça, mas, do jeito que a vida está, encontrar um beijo bom em meio a dois milhões de pessoas suadas e bêbadas é praticamente acertar na loteria do amor.

O fato é que estava ali, a um clique da verdade e, ainda assim, hesitava em quebrar o danado do paradigma que escolheu para chamar de seu. E se depois de adicioná-lo à sua lista de amigos ele mostrasse que é daqueles que curtem tudo mas não compartilham nada? Como qualquer mulher sonhadora, tinha medo de ser mais um peixe a cair na rede social do bofe.

Como não há crime sem corpo, numa noite, depois de usar psicoativos que vendem na farmácia, tomou coragem e mandou uma mensagem seca e suave pro rapaz, uma coisa quase blasé, onde perguntava se ele era realmente o tal moço do bloco ou se ela estava a confundir-se em meio às inúmeras informações circulantes nos festejos momescos. Em menos de cinco minutos veio a resposta, nada blasé, diga-se de passagem. O representante de elite, à la Bruce Lee, além de ter ficado satisfeito com o contato, a convidou pruma degustação de cervejas importadas que estava organizando numa livraria no bairro das Laranjeiras.

Colocou uma calcinha de algodão, um sutiã meia-taça e foi pra guerrilha. Ao chegar, entendeu que o campo estava mais para minado, já que várias moças que por lá figuravam pareciam ter ido ao evento com o mesmo objetivo que ela. Acontece. Nessas horas, como reza a lenda, é matar ou correr, arriscar ou morrer na praia, fazer ou comprar pronto. Pra dar de casual, pegou uma cerveja com toque de madeira e começou a folhear um livro qualquer da prateleira. Sabia que o máximo que poderia acontecer era não faturar nada.

Depois de duas horas de partida, meia dúzia de confissões de gaveta e muita marcação homem a homem, como o placar se mantilha no zero a zero, achou por bem ir embora, para assistir a alguma comédia romântica banal, ou, quem sabe, masturbar-se ao som de Positive Vibrations.

Provavelmente, a cerveja boa tinha enchido sua tulipa de amor próprio.

Afinal, se para morrer basta estar vivo, pra ser heroína, é só ter tempo de fugir.

4 comentários:

geferson gomes coutinho disse...

incrível como, ao começar a ler, eu não consigo mais parar. será uma questão de identificação contemporânea?
em tempo: tem gente q f o (d) g e p r e c o se mente
...

rodrigo de roure disse...

essa contemporaneidade me confunde...
melhor fugir... rs. fuja, eleonora!

Miguel do Rosário disse...

Legal, Poli. Faltou sexo e mais cerveja na história, mas teve literatura de sobra. Beijos!

Paulo Bono disse...

Caralho, Poli.
Seus pensamentos correm.
Você é craque.