terça-feira, 16 de abril de 2013

Doze passos e um destino (pro Clube da Leitura)



Boa noite a todos. Meu nome é Janete. Sou uma viciada em rótulos e estou há nove meses, dezoito dias e duas horas sem dizer nenhuma frase feita. Pode até parecer bobagem essa declaração, mas, no meu caso, muita oportunidade de ficar calada foi perdida, o que, no decorrer dos anos, acabou me transformando numa máquina de tirar conclusões precipitadas.

Pra começar eu nunca soube quem foi meu pai. Isso já fez de mim uma pessoa que sempre considerou os homens como um bando de portadores de genitálias que, por sua vez, portavam esperma que, por sua vez, era o responsável por todas as crianças abandonadas do mundo. Mais tarde, na adolescência, conforme fui descobrindo novas funções pros homens, pras suas genitálias e pro seu esperma, passei a considerá-los meros portadores de desculpas esfarrapadas, cerveja barata e cupons de desconto em motéis. Já adulta, habitando minha própria casa e comprando minha própria bebida, me distanciei da necessidade da cerveja barata e dos cupons de desconto e, por conta disso, acabei associando os homens a meros portadores de flores e, quiça, de ereções que durassem mais de sessenta minutos. Pensando bem, foi depois de uma sessão de uma hora sem tirar de dentro, proporcionada por um portador de margaridas (até hoje minhas favoritas) que disse pela primeira vez uma frase feita. Lembro que era uma quarta-feira e nós tínhamos tomado uns drinques depois do trabalho. Eu o convidei prum café e o creme de leite tomamos na cama mesmo.  Lembro também que era verão, pois o shopping do lado de casa estava fazendo um saldão de primavera. O ano com certeza era 2001, o que inundou nosso assunto pós-coito de teorias sobre a derrubada das torres gêmeas e de divagações sobre o absurdo do terrorismo.

É importante deixar claro pras pessoas criativas, dessas que nunca caem na armadilha das frases feitas, que catástrofes e situações de perigo extremo são as grandes inimigas dos viciados em rótulos. Assim como as liquidações. E o carnaval. E a vontade de dar pra qualquer um. Pra falar a verdade, basta estar vivo pra se falar uma frase feita.

Mas, voltando ao rapaz das margaridas que ficava uma hora sem tirar de dentro, disse a ele, enquanto aguardava de quatro a finalização de seu trabalho dentro de minha pessoa, a famosa máxima de que ‘quem espera sempre alcança’. O cara estava há quarenta e cinco minutos me estocando e eu digo uma coisa dessas! O resultado qual foi? Joelhos roxos por duas semanas e o desejo descomunal de esbarrar com um portador de ejaculação precoce, que, afinal de contas, eu não era cárie pra aguentar tanta broca.

Da mesma forma que para o alcóolatra basta o primeiro gole, pro viciado em rótulos, basta o primeiro clichê. Desse modo, os anos foram se passando e não havia um dia que eu não dissesse coisas como ‘o sol nasce pra todos’ ou ‘deus ajuda quem cedo madruga’.  Exatamente como um viciado em pornografia, eu não queria assumir minha doença. Achava que estava tudo sob controle. Até que cheguei ao fundo do poço. Foi numa festa de família, mais precisamente nas Bodas de prata de uma prima muito querida. Nós não nos víamos há alguns anos. Entre uma taça e outra, ela começa a me confessar as fantasias sexuais que vinha tendo com o chefe do seu setor. Quando digo a ela que onde se ganha o pão não se come a carne, ela se horroriza, joga champagne no meu vestido e me devolve na cara os anos e anos de sexo que protagonizei no ambiente de trabalho. Foi só então que percebi o quão hipócrita pode ser um viciado em rótulos. Enxuguei o champagne da roupa, pedi um táxi e, no dia seguinte, estava matriculada no grupo de apoio a viciados em rótulos, clichês e frases feitas. Trata-se de uma nova vertente no tratamento de adição comportamental, baseada nos famosos doze passos dos Alcoólatras Anônimos.

A diferença é que nossa droga é a porcaria da falta de capacidade de pensar para além do óbvio.

Pelo sucesso que o grupo vem fazendo, esse mundo está mesmo perdido.

Mas tenho fé na minha cura e, na dúvida sobre o que dizer, venho preferindo o silêncio.

Que em boca fechada, não entra mosca.

2 comentários:

Eugenia Rodrigues disse...

muito bom, Poli!

Daniela Moreira disse...

arrasou Poli, vai arrancar gargalhadas - pra mim poderia ser o episódio de uma série! Já pensou nesta idéia né?