quinta-feira, 3 de junho de 2010

Carta aberta às mulheres sem esperança


Diante da crescente quantidade de machos que não consegue sair da própria ilha e, também, do número de fêmeas que desejam ver determinados homens tomando alguma coisa além de cerveja, resolvi elaborar um pequeno manifesto pelo amor descomplicado, e, porque não dizer, pela felicidade verdadeira.

Tudo começa com o que realmente se quer, porque, como já dizia minha tia-avó Neuza, quem não sabe o que procura, não percebe quando acha. E isso se aplica muito mais a nós do que aos rapazes, pois, na dúvida sobre o que fazer, muitas das vezes ficamos ali, na copa, exercitando a crudelíssima arte de cozinhar mancebos em banho-maria. Aliás, quanto mais abandonos o currículo do moço tiver, maior será o tempo de cozimento. Somos más, assumamos isso: Cleópatra, Salomé, Barbie, Lucrécia Borgia, Xuxa e Melissinha, pra citar alguns exemplos, só podiam ser mulheres. Homem não é tão maquiavélico e, tirando raríssimas exceções, não sabe a diferença entre a fome e a vontade de comer. Assim sendo, em se tratando de relacionamentos, na maior parte das vezes, somos nós, portadoras majoritárias de progesterona, que sugerimos o que deles é esperado, o que não chega a ser um grande dilema, afinal de contas, desde meninas fomos programadas a ser fofas e a dizer a verdade nas entrelinhas, como se mentira ela fosse. Portanto, o ideal é ser objetiva como uma centro-avante, construir jogadas e dar os passes certos, trabalhando os fundamentos básicos como quem estivesse somente preocupada com o próprio esmalte.

Passado o primeiro momento da decisão sobre o caminho a tomar, vem a segunda tarefa: a de verificar se o bofe em questão está de fato interessado em você, porque, segundo os ditames da etimologia, a palavra coragem vem de agir com o coração. Portanto, esperar de um homem que não te quer alguma atitude é o mesmo que ficar no ponto deixando passar todos os 410 na esperança de que o 409, cujo trajeto é mais rápido e seguro, venha, luminoso e cheio de lugares pra sentar. Ele até pode vir, mas aí já serão seis da matina e o rimel, mesmo à prova d’água, já terá te deixado com uma cara de anteontem que não merece ser compartilhada com ninguém além de você mesma. Quando for assim, pegue um táxi, é um pouco mais caro, mas uma mulher que anda só precisa ter sempre o dinheirinho do motel, do champagne e do táxi, necessariamente nessa ordem, porque nunca se sabe o que nos espera dentro da noite veloz, ainda mais quando temos o mau hábito de pensar positivo. Mas, voltando à verificação sobre a intenção do bofe, penso ser esse um desafio complexo. Qual é o acontecimento, a palavra, o olhar ou a atitude que oficializam a passagem do reino das amigas-gatinhas-que-ele-come-vez-por-outra para o status de companheira, que, voltando à etimologia, é aquela que come pão junto? Se eu tivesse resposta pra isso, estaria rica, portanto, o máximo que posso fazer aqui é levantar hipóteses. A mais elementar de todas é a que diz respeito à procura. Quem gosta, faz de tudo pra estar por perto: liga, manda email, faz sinal de fumaça ou todas essas coisas juntas. Mas não se engane, existem variáveis para essa procura: o cara pode ligar todo dia e só querer com isso trocar uma ideia com uma pessoa que ele curta a companhia e ache inteligente, mas a quem não vê (sorry about that) como algo que se assemelhe a uma companheira. Um amigo comedor que namora há dois anos me disse certa vez que, no começo, nenhum homem vê em mulher alguma uma companheira, observação esta que me fez refletir um bocado e que me deixou um tanto confusa, mas que, de todo modo, trouxe à luz uma faceta interessante sobre os meninos: eles raramente sabem o que querem, mas costumam ter certeza absoluta do que não querem. Experimente forçar a barra, mesmo que na sutileza, pra comprovar o que digo. Fale, por exemplo, tudo que pensa, explique o que te chateia. Se depois disso o bofe assimilar, não se lamentar e ainda continuar te comendo, é porque é tua, Taffarel. Mas, segundo meu amigo comedor, assim como a Copa, esse tipo de efeméride costuma ocorrer só de quatro em quatro anos e que, portanto, vale o que acontece na maioria dos casos, que é o seguinte: se você curte sexo com homem, se te agrada barba no suvaco e bigode na buceta, prepare-se pra ter de fingir que certas coisas não aconteceram. Pelo menos não com você. O pior de tudo é que esse meu amigo é marxista e adora citar Bertold Bretch. Vivo dizendo pra ele que isso é coisa de galanteador de quinta com hálito de Domeq, mas ele insiste em dizer que, se Bretch propôs o distanciamento no teatro, ele pode propor o distanciamento nas relações contemporâneas, que, basicamente, é tipo uma regra de três: se o que os olhos não vêem o coração não sente, o que o ouvido ignora, o coração não corre nem o risco de sentir, pois sequer entendeu. Disse a ele, da forma mais lânguida que encontrei, que esse tipo de conclusão era pras negas dele, que, naturalmente, não são como essa que vos fala, que detesta se fazer de egípcia e que gosta de demonstrações públicas de afeto, de andar de mãos dadas, de ver as portas se abrindo pra que ela passe deixando um aroma de flor de laranja, de ter a conta paga pelo menos nos primeiros encontros e de não ter de sair batida da cama do bofe no dia seguinte porque ele tem compromisso e não pode te deixar lá senão corre o risco de você arranhar os vinis dele. Disse a ele que, pra mulheres assim, a única saída era o Galeão. Claro que meu amigo comedor achou tenebrosas minhas afirmações, pois, além de marxista, ele é nacionalista e pensa que o produto nacional é o melhor de todos. Shame on him!

Mas, voltando ao que interessa, passada com dignidade a segunda parte da brincadeira e você, sem carimbar o passaporte, vir que determinado rapaz está fortalecendo o produto interno bruto, a parte mais difícil ainda está por vir: a de continuar sendo você mesma sem complicações e sem descarregar no eleito o fato de que os anos estão passando e que isso não está fazendo com que seus óvulos fiquem mais jovens. Sim, porque aulas de pilates seguram a bunda, caminhadas seguram a balança, mas os óvulos, esses, ninguém segura, pois têm prazo de validade. E, ao menor odor de ansiedade na formação de uma família, sedentários se transformam em campeões no cem metros rasos sem barreiras e, antes mesmo de você reparar, eles já foram embora, normalmente dizendo que não merecem uma mulher tão fantástica quanto você. Meu amigo comedor, quanto a isso, tem uma observação interessante: ele comentou que só começou a namorar com essa menina com quem está pensando seriamente em se casar quando a convidou pro chá de bebê de um casal de amigos e ela afirmou, olhando no olho dele, que não gostava do clima que rondava essas reuniões, onde todos questionavam se ela teria filhos em breve. Diz ele que ficou de pau duro na hora, o que, mesmo não sendo verdade, faz a gente entender por que ele já comeu tanta mulher nessa vida.

Aliás, esse meu amigo é feliz pra caralho. E, pensando bem, no fundo, no fundo, aí é que está o ponto central: ser feliz, independente de qualquer coisa. Ser feliz porque tem saúde, porque tem amigos, porque tem discernimento de sentir saudades de coisas nem tão boas e perceber que é exatamente isso que faz a gente se sentir viva, brilhante e com a pele dando a impressão de que somos pelo menos dez anos mais novas.

Agora, passadas as teorias, vou a uma festa, nunca se sabe o que um feriado nomeado corpo de Cristo pode nos trazer de surpresa.

17 comentários:

salvesequempuderavida disse...

AMEM, POLI!

claudia disse...

Olá! Conheço a Flávia, por causa do budismo, e descobri seu blog no facebook dela. Gostei muito do seu texto. Muito bem escrito, com frases super interessantes. Legal mesmo! Parabéns!!

Idéias em Gotas disse...

Poli, linda... Obrigada :)

mari + poesia disse...

Adorei o post,Poliana.
Você tem toda a razão,espero confirmar as suas hipóteses.
Mas na real mesmo eles não sabem o que querem mesmo e ainda dizem que as mulheres são quem não sabem.
Beijos

rodrigo de roure disse...

que mulher forte. muito bom!

Gardênia Vargas disse...

Risos! Imaginei tu-do! Muito bom o post!

Helô Helê disse...

Muito bom, Poli! =)

Igor Barradas disse...

Yeah!!!! Foda!

RaMoNzItO disse...

Então quer dizer que pra mulher é importante um cara que a queira de verdade? Não parece muito sabe, Poli... Tenho a impressão de que as moças modernas esforçam-se para agir como canalhas - ou como os homens! , acho que pra não sentirem-se em desvantagem, talvez. Sei que a maioria diz que quer mesmo um homem que as queira de verdade, mas quando acontece elas correm o risco de o perderem, por agir assim, canalhas, como todas pensam que somos! Que triste.

Sabrina Bitencourt disse...

Genial!Bjos

Samantha disse...

poli, eu A-DO-RO te ler!
esse aqui tá GE-NI-AL, visse?
sensacular!
beijo

Bruna disse...

Francamente! Quando é que os homens se tornaram tão importantes assim na nossa vida? Haha...

o que é semiótica? disse...

a incrivel batalha do imperio do para sempre contra o reino do nunca mais, o amigo comedor e a flor de laranja...muito FODA POLI!!!!

Eduardo disse...

Muito bom =)

M. disse...

demorei pra responder, me faltaram palavras.

me sobraram espaços.

Flávio Bernal disse...

nos, indecisos?!
claro q sabemos o queremos
a maioria quer ter uma mulher bonita(gostosa, em termos mais vulgares), a minoria quer ter uma mulher menos bonita so q mais inteligente e a minoria da minoria é cega, acha q a pessoa q tá do seu lado é a mais bonita do mundo, ou seja ama de verdade
(ficaria com as duas ultimas)
tenho q falar tambem q homem ñ é tudo igual, o problema é q ficam procurando marido em boate.
veja seu amigo, tá pensando em casamento com uma pessoa q ele conheceu em um chá de bebê, ñ em uma boate.
enfim, é isso espero ter quebrado tabus depois dessa

Taninha disse...

Muito bom! adorei seu blog ( que me foi recomendado pelo Mauricio do Baratos da Ribeiro)!
Temos pensamentos parecido! Dá uma passadinha no meu e me diga o que achou! www.blogdataninha.com
bjs