quarta-feira, 16 de junho de 2010

Uma crônica de futebol (ou quase isso)


Um amigo dileto me pediu uma crônica. A princípio achei que era pra algum trabalho, porque amizades contemporâneas têm esse quê de time is money, mas, quando ele me disse que só queria mesmo saber se o maior evento mundial dedicado ao futebol me inspirava, instiguei. Depois de um tempo pensando sobre o que escrever para além de vuvuzelas, jabulanis, frangos e retrancas, me lembrei de algumas coisas: a primeira foi que na última Copa perdemos Bussunda, o que não foi nada legal. Parece que foi ontem que fui contar o ocorrido pra minha mãe, no intuito dela não ser surpreendida pelo Jornal Nacional, e a vi chorar como se o Casseta filho dela fosse. Na hora deu um travo na garganta esquisito à pampa, parecido com ressaca de champagne. Lembrei também que essa é a primeira Copa sem Armando Nogueira, que foi um figura importante e coisa e tal. Inclusive, sempre que penso em Armando me lembro de Nelson Rodrigues e fico um tanto puta de não ter trocado uma ideia com o coroa ao vivo. Sim, poderia tê-lo feito, afinal, ele morreu eu tinha uns nove anos. Tá certo que ia ser meio complexo conhecê-lo assim do nada, mas de todo modo me emputeço, pois sou fã inconteste de suas crônicas de futebol. Tudo bem que Nelson será Nelson pra sempre. Aliás, ele, Tchaickosvky, Lina Bo Bardi, Pina Bausch, Dali, Vick Muniz, Fellinni e Haroldo de Campos são pra sempre. Pelo menos com Haroldo eu desenvolvi um papo, no Lamas, depois de uma peça escrita por ele e encenada pelo Gerald Thomas. O bichinho já tava velhinho e falamos um pouco sobre a personagem que interpretei, uma menina que se relacionava com um extraterrestre, aquela coisa poesia concreta que só dá pra entender com a pele. A verdade é que depois dessa peça não fiz mais teatro, minha vida foi tomando outros caminhos, mas, desse episódio, confesso que nunca mais vou me esquecer.

Aprendi com o poeta concreto que tem dias que a noite é foda.

Do primeiro contato com o esporte bretão não me recordo bem, mas, desde que me entendo por gente, já assistia aos jogos compulsoriamente, pois só tínhamos uma televisão e Sítio do Pica-pau Amarelo nunca chegou a ser uma prioridade. Daí pros programas tipo Camisa 9 e pros jogos com TV no mute (acompanhados de narrações de rádio no último volume) foi um pulo. O fato é que, ao invés de ficar traumatizada, comecei a achar tudo muito legal, ainda mais porque era década de oitenta e lá em casa tinham muitos campeonatos vespertinos de botão, que configuravam uma desculpa perfeita preu “apitar” todas as partidas no meio dos amiguinhos adolescentes dos meus irmãos. Lembro também de achar engraçado mamãe dizer que, ainda que se tratassem de meninos muito bonzinhos, o melhor era evitar sentar no colo deles quando não tivesse mais ninguém por perto. Mesmo seguindo seus conselhos (sempre que dava, naturalmente), só fui sacar a utilidade de tanta sapiência bem depois. Outro lampejo (esse já bem esmaecido) que me vem agora é o da Copa de setenta e oito, quando me explicaram que a Argentina fez de tudo pra levar o título e acabou comprando a seleção do Peru, que abriu as pernas e se deixou vencer de goleada, provavelmente em troca de uma boa grana. Não cheguei sequer a dar bola pra essa matemática insana e provavelmente devo ter pedido em vão pra alguém ir comigo ao parquinho brincar de balanço.

Aprendi com mamãe que tem dias que as tardes são foda.

Depois meu irmão começou a me levar pro Maraca, pois, se hoje em dia aquilo é o paraíso na Terra, naqueles tempos de copos de mijo atirados na geral, o bagulho pesava e moça sozinha passava maus bocados. Foi no Maraca que perdi o primeiro lance por estar focada na minha melissinha: “Aqui não tem replay, tem que ficar ligada no jogo, deixa pra ajeitar sapato depois”, dizia ele, enquanto me mimava comprando cachorro-quente da Geneal. Depois disso fiquei esperta. Aliás, desde que o mundo é mundo curto a ambiência dos estádios: a paixão, a suspensão do tempo, o rádio colado nos ouvidos, os olhos vidrados, tudo isso sempre me encantou. Venhamos e convenhamos, é raro ficar assim vendo balé. Até meu irmão, que sempre foi um cara mais pra fino, virava bicho nas partidas, o que me levou a perceber que toda a erudição do mundo vai pra casa do caralho quando o assunto é futebol e isso dá uma sensação de pertencimento incrível. Pertencimento só até a página dois, diga-se de passagem, porque, anos depois, já na faculdade de Educação Física, tive meu primeiro contato com uma chuteira e adquiri a certeza absoluta de que não havia nascido pra quebrar as unhas dos pés nem pra embaixadinhas. Deus me livre, sou fresca, mas, como tinham as provas teóricas, eu acabava dando meu jeito de passar. Nessa época já sabia o que era trivela, lençol, impedimento, zaga, corta-luz e todas essas churumelas que ouvimos dos homens numa espécie de brado, nem tão heróico, mas, de todo modo, retumbante. Foi sofrendo com a prática que mais me curvei aos grandes craques. Meu predileto sempre foi o Zico, é claro que por influência do meu big brother, flamenguista doente, que vivia dizendo que não havia coisa pior no mundo do que uma pessoa virar a casaca. Pode-se dizer, a partir disso, que virei (e me mantive) flamenguista por diferença de pressão. Com muito orgulho, por quê não?

Aprendi com meu irmão que tem dias que ser mulherzinha é foda.

Hoje vejo futebol com um olhar meio antropológico porque sou mais pra intelectual e acho bonito esse tipo de manifestação tão genuína. Pensando bem, bonito mesmo é aquela cambada de quadríceps sacolejando, mas isso não se pode mais sair falando por aí, pois corre-se o risco de ser taxada de utilitarista pela tropa crescente de fiscais do politicamente correto. Aliás, sou é saudosista: curtia a coisa dos jogadores vestirem a camisa de um time e só tirarem na hora que pendurassem as chuteiras. Amava o futebol-arte que gostava de gol, as transmissões de Copa do Mundo com direito a dúvidas por conta da inexistência de trinta e duas câmeras cobrindo tudoaomesmotempoagora e, sobretudo, louvava a tristeza genuína, não essa apatia letárgica à qual costumamos chamar de melancolia.

Tudo culpa do capital global.

Aliás, aprendi com o muro de Berlim que, no que depender do capitalismo, todo dia é uma foda mal-dada disfarçada de orgasmo múltiplo.

6 comentários:

Flavia Candida disse...

Não gosto de futebol - nem em Copa do Mundo... mas depois de ler sua crônica eter recém assistido o "Geral", da Anna Azevedo, me deu mó vontade de partir pro Maraca djá!

E como diz 90% dos bofes após um gol: "É Poli, porra! Puta que o pariu!" A copa é forevis sua, beibe!

Bjs

Flavia Candida disse...
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Isabel disse...

Linda crônica, Poliana, recebo pela Samantha e vou passar para amigos. Parabéns!
Isabel Lacerda

A Fofoqueira S/A disse...

ui, esse final aí arrebentou! A gente viu ele cair.

rodrigo de roure disse...

que maravilha. que texto bom! tou pra tudo isso que você disse com copa do mundo e futebol. rs.

o que é semiótica? disse...

amiga vc é foda, cristiano ronaldo é foda, kaka é foda!!! quero mais nas eliminatórias beibe