quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Seca e suave


O local é a fila do banheiro de uma festa. A circunstância, uma conversa entre duas mulheres.

A tristeza era que uma delas se achava muito amiga da outra.

-E aí, gostosa, tudo bem?
-Isso é comigo?
-É lógico, com quem seria?
-Não sei, mas o fato é que não sou gostosa.
-Claro que é. Todas nós nessa fila somos.
-Olha só, que fique bem claro: eu não virei lésbica.
-Sei...
-Nem ostra eu como.
-Hahahahahahaha, tinha me esquecido de como você é divertida!
-Ô.
-Tá trabalhando com o quê mesmo? Não me lembro mais.
-Jura?
-Juro!
-...
-Mas diga: você trabalha com o quê?
-Eu escrevo.
-Escreve o quê?
-Primeiramente sílabas, depois palavras, depois frases, parágrafos e por aí vai.
-Tá, mas escreve pra onde?
-Pruma revista.
-Jura?
-Acho desnecessário jurar.
-Qual revista? Marie Claire? Contigo? Minha Novela? Boa forma? Dieta Já? Capricho?
-Não.
-Pra qual?
-Pra Carta Capital.
-Carta o quê?

Nesse exato momento, o sangue, que não costuma se manifestar de forma corriqueira nas veias da economista, ferveu num nível Glenn Close advanced e por pouco seu raciocínio não ficou comprometido. Respirou fundo e viu que havia chegado sua vez na fila. Fez, de forma desesperada, seu xixi de pé, e, contrariando as leis da higiene, sequer lavou as mãos.

Pra completar o kit fuga, rumou pra pista de dança e deu mole pro primeiro que apareceu.

Quando já estava pra ser chupada pelo mancebo é que foi lembrar que não tinha se limpado na festinha.

Mas aí já era tarde, deixou quieto. Se desse sorte o moço nem repararia.

Na manhã seguinte, tomando café da manhã no motel, naquele intermezzo entre a fome e a vontade de comer, teve de ouvir:

-Posso te falar uma coisa, gatinha?
-Claro.
-Adoro mulher apertadinha que nem você.
-É mesmo?
-É.
-Que ótimo.
-Posso falar outra coisa?
-Claro.
-Gosto também de bucetinha freestyle, sei que não é todo homem que curte, mas eu me amarro.
-Legal, mas o que seria uma bucetinha freestyle?
-Ah, tipo a sua, toda trabalhadinha no xixi.
-Ah.
-Se a gente sair de novo, você promete que repete a dose?
-Eu não sou muito de promessas...
-Você é divertida.
-Ô.
-Trabalha com o quê mesmo? Não me lembro mais.

Depois dessa, viu que era game over. Pediu a conta, o táxi e avisou no trabalho que estava indisposta.

Pra se garantir, ligou pra farmácia e pediu um carefree.

Na euforia de ficar úmida e intensa, acabou esquecendo que por vezes o melhor a fazer é permanecer seca e suave.

7 comentários:

paoleb disse...

bucetinha freestyle é impagável! poli vc é demais!

o que é semiótica? disse...

hahahaha.. freestyle, esses homens são os q curtem mesmo o objeto de prazer, impagável 2!

Paulo Anomal disse...

mt engraçado!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

a minha esposa tem gosto de hambúrger, mas ontem tava com gosto de queijo brie; talvez esteja grávida.

Paulo Anomal disse...

fiz uma arte inspirada nos seus textos. tah lah no blog "soldadinho de chumbo". bjus

bia pimenta disse...

diva! vc me mata de rir! cara, tenho medo de vc poliana!

Diario da Fafi disse...

hhhahahahhaahahahahahaaaaa