
Disfarçada de samba, a alegria perguntou:
-Com que roupa eu vou pra onde ninguém me convidou?

Quando depois de vinte anos duas amigas de colégio se reencontram, as agruras e delícias da adolescência vêm à tona como se apenas cinco minutos tivessem se passado. Tudo tem cheiro e sabor e quase nada escapa à memória:
-Lembra quando a gente foi pega fumando no banheiro do quinto andar?
-Claro, você que cismou que eu tinha que fumar!
-Ah, coitadinha, tão ingênua.
-Ingênua não, medrosa!
-Medrosa pra fumar, mas pra dar...
-Olha o respeito!
-Fala sério, mané respeito, você já dava até a retaguarda pra se manter virgem enquanto eu nem beijar na boca beijava.
-Sabia que minha filha usa um termo pra quem não beijou na boca ainda? É uma sigla...
–B.V.?
-Isso mesmo.
-Sua filha é B.V.?
-Diz ela que sim.
-Então trocaram ela na maternidade.
-Boba! Mas fala de tu.
-Ah, eu casei duas vezes, separei, fiz dois abortos e tô aí na pista.
-E como tá a pista?
-Lotada!
-Sabe que eu tenho saudade de sair pra paquerar?
-Normal, né, baby, a gente sempre quer o que não tem.
-Pois é...
-Quê carinha é essa?
-Ah, às vezes me questiono se fiz a escolha certa, sabe?
-Como assim?
-Tipo, meu homem é maravilhoso, companheiro, paizão, tudo certo.
-Então qual o problema?
-Ele tem distúrbio de ansiedade.
-Que porra é essa?
-Tipo ele tem umas palpitações, uma angústia no peito, às vezes tem até que tomar tarja preta, um saco.
-Mas isso interfere na performance?
-Que performance?
-Que performance, sua putinha?
-Hahahahahahaahahahahahahha!
-Interfere?
-Claro que não, sexo até melhora ele.
-Doencinha boa essa então.
-É, homem perfeito num tem, né?
-Até tem, mas tá tudo morto.
-Você continua uma figura, e aí, tá namorando?
-Tô saindo com um carinha aí.
-Legal ele?
-Legal, mas morre de medo de se envolver.
-E você não, né?
-É, eu também...
-Vou te falar uma coisa, do alto da minha baixa temporada: melhor tá solteira do que casada com homem broxa.
-Ou grosso.
-Ou indiferente.
-Ou galinha.
-Galinhas todos são...
-Até se apaixonarem...
-Menina, a gente tá disputando um campeonato de quem fala mais clichês?
-Hahahahahahahahaha!
-Mas num é? Num falamos nada de novo até agora.
-É.
-Mas, também, o que é novo nesse mundo?
-Meu vibrador, comprei semana passada, lindo, o tal do rabbit.
-É bom mesmo?
-Não dá vontade de sair de casa, filha, uma coisa.
-Isso deve ser bom pra gente frígida.
-Pois então, eu até os trinta nunca tinha gozado, depois que comecei a adquirir brinquedinhos, sou praticamente uma deusa do sexo.
-Hahahahahahha.
TOCA O TELEFONE
-Ih, é o maridão (ATENDE) Oi, mozão, sabe quem eu encontrei? A Bella, que estudou comigo, tamo aqui na maior fofoca. (PAUSA) O quê? (PAUSA) Fica calmo, mozão, você sabe que não é nada no coração. (PAUSA) Tá com o frontal aí? (PAUSA) Então, toma metade que tô indo te buscar, tá? Te amo.
-...
-Vou ter que ir amiga, maridão tá freak.
-Vai lá, então, melhoras pra ele.
Se despediram sem saber quando iriam se encontrar de novo.
Mas de uma coisa tinham certeza: felicidade dos outros é cristal.
Já a nossa, pedra bruta.

SEQUÊNCIA ÚNICA- QUALQUER LUGAR- EXT- DOMINGO
Rapaz e moça conversam.
-Você é ciumenta?
-Se eu sou ciumenta?
-É?
-Acho que sou normal.
-Defina normal.
-Posso ser sucinta?
-Deve.
-Acredito mais no respeito do que na posse.
-Legal.
-E você?
-Se sou ciumento?
-É.
-Acho que sou que nem você, adepto do respeito.
-Ponto pra nós.
-É.
-Até mesmo por que, quem se prende é a própria pessoa.
-Como assim?
-Por exemplo, se eu fosse sua gatinha, não ia adiantar eu tentar te prender a mim, só você teria essa capacidade.
-E esse desejo...
-Isso mesmo, quer chiclete?
-É de quê?
-É dado.
-Hahahahahahaha, você é divertida.
-Ser divertida é apagar determinados incêndios com conta-gotas.
-Nossa, isso foi uma metáfora?
-Sabe que até hoje não sei direito o que é metáfora?
-Jura?
-Se precisar eu juro, uai.
-Você é mineira?
-Nada, carioca.
-Num parece.
-Por quê?
-Sei lá, essa pele cheia de sardinhas, parece gente de fora.
-Minha mãe é galeguinha, mas minha vó era negona.
-Legal.
-Mas fala mais das metáforas.
-Você não aprendeu isso na escola?
-Essa aula devo ter matado.
-Metáfora é uma figura de linguagem que compara duas coisas, tipo: ‘você é uma gata’.
-Obrigada.
-Sério, se você é uma mulher, não pode ser uma gata, portanto, se eu te comparo a uma gata sem dizer que você é 'como uma gata' ou 'tal qual uma gata', isso é uma metáfora, entendeu?
-Nossa, morri agora.
-Para com isso...
-(Risos).
-'Morri' é exagero, vai...
-Não é exagero, é hipérbole.
-Olha só, que danadinha...
-Foi só à aula de metáfora que faltei.
-Maneiro.
Continuaram nessa por horas, apalpando suas almas em braile.
Aceitando o escuro.
Pra ver se dissolviam os temores que insistem em nascer do cansaço.
E da solidão.