sexta-feira, 11 de abril de 2008

O privilégio

Minha amiga Dani é quatro anos mais nova que eu. Agora isso não faz a menor diferença, mas na época em que nos conhecemos ela era a criança virgem e eu, a putinha iniciante. Se soubéssemos que a vida nos traria tanta realidade, teríamos sido gurias pra sempre. Passávamos o dia entre pas de deux, grand jetés e sapatilhas de ponta. Nosso sonho era dançar no Municipal e, para tanto, vivíamos a encostar o pé na orelha e a fazer cara de que aquilo não doía nada. Mas isso tem tempo. Isso é dos idos que dieta se chamava regime, que só se beijava um homem por noite e que ainda dava pra namorar dentro do carro nos mirantes da cidade. Uma época onde ninguém discutia se o tomate era transgênico e nem se a gordura era hidrogenada. Bons tempos.

Já adultas, perdemos o contato. Mas a vida, sempre disfarçada em sua falta de sentido, tratou de nos reaproximar. Nos esbarramos numa praia de noite, onde falamos de novas questões e de velhos medos, como se não tivesse se passado nem uma semana. Àquela altura, namorar no carro já era bem perigoso, mas ainda se beijava apenas um homem por noite. Bons tempos.

Depois disso, fiquei perdida e acho que ela também. Essa coisa de ter de ser bem sucedida, gostosa, bem comida e simpática foi demais pra nossa ética interna. Isso foi mais ou menos quando regime passou a se chamar vida light e quando mudávamos de profissão após cada viagem a Ibitipoca. O fato é que não tínhamos nenhum medo do perigo de sermos nós mesmas, ainda que isso significasse o caos completo. Bons tempos.

Mais recentemente, na UFF, mesmo em cursos diferentes, passamos a preencher de interseções nossos círculos de amizade. Nesse momento ficou claro como era antiquado beijar um homem só por festa e notamos que, apesar de muito vigorosas e gostosas, já não éramos mais tão meninas assim. Mesmo sem perceber, tínhamos completado quinze anos de amizade. Bons tempos.

Agora Dani está nos States, casada com um gringo sangue bom e trabalhando na área que escolheu. Lá ela é a brasileira gostosa, a exótica, a tesuda. Mas sente falta daqui, do cheiro de nossas risadas e do descompromisso das cervejas geladas que só nós sabemos tomar. Não ter amigos por perto é duro, mas ela sabe que estou sempre pensando nela. Estamos separadas, mas juntas. Esse é o grande barato da história. Tem gente que não tem isso na vida. Nós duas conquistamos o privilégio de sentir saudade.

E pouca coisa deve ser pior do que não sentir nada.

Esse risco não corremos. Conosco, todos os tempos são bons.

13 comentários:

Fábio Ricardo disse...

Todos os tempos sãobons. Isso soa como música aos meus ouvidos. Vai dizer que apesar de cheia de defeitos, essa nossa vidinha mais ou menos não é a melhor coisa que já nos aconteceu?

Lis disse...

adorei, poli. linda essa.

Paulo Bono disse...

"todos os tempos são bons". não sei se é bem assim, mas é uma puta frase.
Bem, tenho uma grande amiga. É Dani também. Tenho mais outros dois amigos nessa categoria. E há um tempão não os vejo. Mas quando a gente se encontra, nem que seja pra contar uma piada ou comentar sobre a campanha do Flamengo, pode ter certeza, os tempos são do caralho.

abração.

*Desculpa, meus comentários costumam ser curtos, mas seu texto me fez pensar em muita coisa, sei lá, nos bons tempos.

Flavia disse...

que declaração de amor mais linda, beibe

Carol disse...

Poliana! q coisa mais linda, como me emocionei...

obrigada

Tatiara Costa ; ) disse...

nova aqui...

Adorei! ;)))))))

Abração!

Marcela Bertoletti disse...

Adorei querida!
Tem amizade que é para sempre não importa a distancia.
Acho que esse foi o primeiro que li sem diálogo, é diferente dos outros. Mas gostei muito!
Beijos queridona!

gigi disse...

Que lindo, Poli! Por essas e outras você segue como minha musa.

Preciso te dar o tel. da nova estrela do teu novo documentário.

beijos.

Marina Melz disse...

amizades verdadeiras podem ser construídas a distância, mantidas a distância e mandar a distância a merda.

todos os tempos são bons e sentir saudades é a melhor coisa que pode existir - e mais ambigua também.

gosto daqui. recomendo no invisível.

Rackel disse...

Q lindo... se eu fosse essa sua amiga ia amar suas palavras... como não sou, me contento de pensar nas minhas proprias amigas, nas q são presentes e nas estão distantes tb (q estão sempre presentes, embora isso pareça meio controverso)...
belo post!

bj

daniela disse...

minha amiga, eu visito esse texto como quem ve uma foto da infancia, ou tira da gaveta aquela camiseta furada q tras as lembranças de um outro tempo bom. Eu amo esse texto, ele nao substitu as nossas cervejas e conversas de butiquem nem gfrandjetes, ou gatinhos pegos contra o muro e viagem de ultima hora, mas ele eh uma presença viva de voce na minha vida e assim como tal, nao morre nunca. To te esperando hein nega!

Srta. Rosa disse...

Acho que estamos perdidas todas... rs. Suerte para nosotras. E sim, é uma bênção ter uma amiga de quem possamos sentir saudade.
Belo texto!
Bezzos,

letrúcia disse...

eita, que texto bonito.