domingo, 4 de janeiro de 2009

O croissant de cada dia

Anita foi morar com o namorado. Pra ela, isso não é casar. Mas sua mãe, que já está no sexto marido, sabia que aquilo ali era casamento, sim. Só não insistia no assunto, pra não assustar a própria cria.

-Oi, Mami.
-Oi, filhota, já ia te ligar, tô com saudade!
-Eu também.
-Como vão as coisas em casa?
-Tudo bem, tô adorando morar com o Alyson, ele é fofo, vai à feira todo domingo e sempre traz cuzcuz e flores.

Aquilo pro ouvido de uma mãe soava mais retumbante do que o Concerto número um para piano e orquestra de Tchaikovsky.

-Mas, maezinha, aconteceu uma coisa que eu queria te contar.

Sempre que ouvia maezinha dito com aquela voz de ambrosia, sentia um calafrio na espinha. Mas, na dúvida, se fez de moderna:

-Conta.
-Aly conseguiu uma bolsa pra estudar em Paris.
-Que maravilha! Aquela que ele vem há anos tentando?
-Essa mesmo, em bioestética!
-Que beleza, filha, precisamos comemorar!
-Sim, claro.
-Ele quer te levar com ele, né?
-Isso.
-E você vai, claro!
-Pois é mãe, não sei se devo tomar uma atitude tão drástica. E se lá não tiver trabalho pra mim?
-Como não? Ele não tem cidadania francesa?
-Tem.
-É só vocês oficializarem a união que vai dar tudo certo!
-E você não vai morrer de saudade de mim?
-Vou, querida, claro, mas é a lei natural da vida.

Era a tal coisa: sabia que a filha tava feliz. Por mais que doesse, era necessário. Só tinha mesmo que convencer a garota de que ela já estava casada há um tempo. Sentiu que aquele telefonema seria esclarecedor.

-O lance é que a gente não é casado, né, mami!
-Eu não afirmaria isso com tanta certeza...
-A gente mora junto, é muito diferente.
-Diferente como?
-Ah, a nossa conta do banco não é conjunta, por exemplo.
-Mas você não tem seu dinheiro? Por que seria conjunta?
-Porque demonstra confiança.
-Pode até demonstrar, mas não é coisa pra se pensar agora, vocês estão juntos há o quê, quatro anos? É cedo pra conta conjunta, deixa isso pra depois.
-Tá, mas eu não tenho certeza se ele quer que eu tenha o sobrenome dele.
-Ok, se você não quiser também, nem precisa...
-Mas e se eu quiser?
-Aí vocês vão dar um jeito, filha, escuta sua mãe, que de casamento eu entendo...
-Hahahahahahahahah!
-Você tá se prendendo a detalhes. A vida é feita de fatos concretos.
-Explica com exemplos.

Desde pequena, Anita pedia pra mãe explicar as coisas com exemplos. Sempre foi uma tática muito boa entre elas, mas ao mesmo tempo era uma dinâmica delicada, porque exemplo é coisa que marca os filhos por toda a vida. Baseado nisso, buscou ser o mais direta possível.

-Tá, então vamos lá: sempre que ele quer, vocês transam?
-Não, nem sempre. Às vezes ele não tá a fim; às vezes sou eu.
-Ok, tudo certo, mas você não deixa ele na mão durante muito tempo, né? Nós sabemos como são os homens, dão logo um jeito de se arranjar fora de casa e isso não é bom, concorda?
-Mamita, me poupe!
-Vai dizer que depois de uns dias sem vontade de abrir as pernas você não tem que dar uma chupadinha paliativa?
-Mãe!
-Responde sua mãe ao invés de dar uma de virgem dos lábios de mel!
-Chupadinha paliativa à espanhola, se é isso que você quer saber!

Teve o impulso de soltar “Essa é minha garota!”, mas se conteve. Sempre foi liberal, mas de poucos elogios. Achava isso bom pra forjar o caráter. O fato é que não cabia em si de tanto orgulho. Sabia que tinha que vir com a cartada final. Respirou fundo e meteu:

-Chupadinha paliativa é coisa de mulher casada, filha. Porque demonstra não só confiança, mas também companheirismo. Indica que você, mesmo nas horas que não está muito a fim, se esforça pra agradar seu homem, que, com certeza, faz o mesmo por você. Porque homem que volta da feira com cuzcuz e flores, sabe cuidar de uma dama.

-Nossa, mamita, me senti esposa agora!
-Maravilha! Sigamos então para os assuntos práticos: quando que começa a bolsa dele?
-Só em setembro.
-Acha que tá longe? Fevereiro, março, abril, maio, junho, julho, agosto. Sete meses, porque setembro não conta, que já é a viagem. Sabe que isso não é nada pra organizar uma festa, né?
-Festa, mãe?
-Bem, isso é com vocês, mas acho que tem que ter uma festa, que já fica como casamento e despedida, afinal serão pelo menos quatro anos fora, né?
-Isso é! Só tenho que conversar com Aly primeiro.
-Claro, mas tem que ser logo, que o tempo voa!

Assim, dois dias antes de partirem pra Paris, passaram uma linda tarde de calor na casa de um amigo em comum, com direito a piscina, cerveja geladérrima, churrasco e making off. Tudo isso pra aquecer o frio vindouro.

E também, é lógico, pra abrir o apetite pro croissant de cada dia.

8 comentários:

fabioricardo disse...

Isso eh q eh parceria... Tudo na vida é extremamente simples, a gente só precisa de alguem pra no abrir os olhos e nos mostrar que quem tá complicando é a gente mesmo.

Juju disse...

ai eu quero tá casada assim...com direito a bolsa em paris e chupadas paliativas

Mauricio disse...

eu quero casar com a mãe da moça ..deve ser muito melhor que ela !!ahahahah...
Beijos !! Feliz ano novo !!

Paulo Bono disse...

claro, pelo menos uma chupadinha!
e o texto fuderoso, como sempre.
abração

Castor disse...

Chupada paliativa foi sensacional...

Beijos!

Marcela Bertoletti disse...

Adorei!

Beijocas

M. disse...

rs.

agente gosta de dar exemplosparticos....


facilita tudo.

Rackel disse...

Ai q vontade de largar tudo e me mudar pra Pariiiiiiiis!!! (mentira, eu não viveria sem o Rio de Janeiro e os meus pais pentelhos por mais de 4 semanas! rsrsrs)