sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Dicas práticas pra não achar que o gatinho está a fim de você quando ele só quer ser seu brother

Como sabiamente canta Zeca Baleiro, o maior desejo da boca é o beijo. Daí, por conta disso, vez por outra, meninas tomam como gatinhos em potencial moços que até têm tesão nelas e adoram estar por perto, mas, definitivamente, as veem como brothers. A partir disso, é criada uma pseudo-relação, pseudo no sentido da falta de confluência e fluidez, mesmo quando ambas as partes julgam ter sido claras sobre as intenções que as movem. Acontece. Se enganar faz parte da vida. Enganos, inclusive, podem ser nossos amigos. Com o tempo, se bem aproveitados, passam a compor uma espécie de anti-cartilha do cotidiano.

Assim sendo, segue mais uma lista de dicas práticas para evitar que vocês, meninas, gastem energia com o que não flui, e para que vocês, meninos, fiquem mais atentos às feminices.

Capítulo primeiro: do standby

-Vocês vão sair de novo finalmente?
-Parece que sim.
-Como assim, parece?
-É que não marcamos exatamente.
-Tão em dúvida de onde ir?
-Não, já escolhemos um local.
-Sei...
-É que ele me deixou em standby, disse que é melhor marcar só no dia mesmo, que daí não rola de termos de desmarcar, caso ele não consiga se desvencilhar do trampo e tal.
-Porra, amiga, standby é coisa pra aparelho de dvd!
-É que a vida dele é uma loucura, não tem horário pra nada. Pra você ter uma ideia, tem dias que ele sai de casa às quatro da manhã porque precisa filmar o sol nascendo, acredita?
-Há quanto tempo você tá em standby, nega?
-Há algumas semanas.
-Já reparou que se você deixar o dvd parado por mais de meia hora ele desarma?
-Que analogia besta, amiga...
-Não é não! Uma coisa é deixar um encontro pré-combinado, tipo “vamos se ver na sexta, mas te dou aquela ligadinha confirmando no dia”. Isso é mostrar interesse e consideração pela dama, sem deixar de levar em conta os imprevistos da vida. Outra coisa é deixar pra te convidar só no dia, como se você estivesse à disposição full time.
-...
-De repente ele te vê como brother.
-Será?
-Acho que sim.
-Pensando bem, isso rola direto entre nós duas e é mó normal, né?
-Sim, nós podemos nos deixar em standby, temos anos de brodagem nas costas!
-Mas isso rolar com o gatinho é caído, né?
-Eu não acho bacana, mas se você não se importa, tranquilo também...

Dica prática: se o moço não consegue te encaixar na agenda dele, talvez seja a hora de sair do standby e dar play em aparelhos outros. Ou de outros, você é quem sabe. Só não vale é se acomodar, que isso não é posição digna pruma gatinha.

Capítulo segundo: das “amigas”

-Você não vai acreditar.
-Ai, Jesus, fala.
-Ontem encontrei de novo com o tal carinha que te falei, lembra?
-O que você ficou anteontem?
-Esse mesmo.
-Sim e aí?
-E aí que ele não olhava direito na minha cara, sabe assim “sou muito tímido”?
-Mas pra dormir junto pelado não teve timidez, né?
-Nenhuma.
-Ai, que preguiça...
-Espera que tem mais.
-Aff...
-Chegou uma amiga minha e simplesmente se pendurou no pescoço dele, tipo cachecol, sabe assim?
-Você tem umas amigas também, hein, vou te contar!
-Foda!
-Mas ele ficou com ela na sua frente?
-Não, mas a sensação que eu tive era de que teria rolado se eu não estivesse por ali, sabe assim?
-Sei.
-Incrível esse tipo de situação, né?
-É, baby, de repente ele te vê como brother.
-Será?
-Brother é assim: fica contigo, com sua amiga, com sua irmã, tudo na mesma semana, esquema procriação em cativeiro.
-Hahahahahahahaha! Só você pra me fazer rir, amiga.
-Tem que rir, filha, e, da próxima vez que encontrá-lo, dá um jeito de cantar no ouvidinho dele assim: “Take it easy my brother Charlie, take it easy meu irmão de cor, ê, ô”.
-Hahahahahahaha! E ele é negão!
-Do olho verde, tô ligada, esse é o tipo de informação que não esqueço, gata.

Dica prática: se ficou com o gatinho e teve uma noite excelente de miscigenação, fique atenta à atitude dele com suas amigas quando encontrá-lo novamente. Se a simpatia e a permissividade forem excessivas, ligue seu detector para brothers e dê um jeito de receber um telefonema urgente requisitando sua retirada imediata do local, pois situações como essa não precisam de cenas do próximo capitulo.

Capítulo terceiro: da necessidade de mencionar outra mulher que não a mãe, a irmã ou a tia-avó numa conversa

-E aí, foi legal o encontro?
-Foi sim, ele é figura.
-Legal!
-É...
-É o quê?
-É legal porque o silêncio não incomoda, sabe assim?
-Sei, isso é bem gostoso.
-É sim.
-Mas e a química prática? Funcionou?
-Ele é bem suave.
-Você curte, né?
-Sim.
-Tá, mas o que se passa, então, filha?
-Nada.
-Conheço essa sua carinha de ponto de interrogação.
-Boba...
-Anda!
-Ah, nem é nada de mais, mas de vez em quando, não sempre, ele fala de outras mulheres, sabe?
-Hummm.
-E eu não consigo meter um: “Ah, é? Poxa, que legal!”.
-Nem é o caso, o ideal é mudar de assunto, não?
-É, mas sei lá, não curto.
-Nenhuma mulher curte. Fato.
-Será? Acho que tem mulher que não liga.
-Que não liga não existe. Existe mulher que entende isso como insegurança de macho e simplesmente desapega.
-Mas por que você acha que é insegurança?
-Não sei se é insegurança exatamente a palavra, mas é uma coisa tipo “tá vendo como sou desejado?”
-Ah, não, não posso acreditar nisso!
-Você pode até não acreditar, cada um acredita no que prefere, né não?
-Besta!
-Quer ver uma coisa? Você fala de outros caras pra ele?
-Lógico que não!
-Tá vendo? E por que você não fala?
-Porque não acho que isso seja assunto.
-E por que você acha que isso não é assunto?
-Porque não preciso me explanar pra ele, essas coisas eu deixo pra falar contigo, que com a gente rola brodagem pra isso.
-De repente ele te vê como brother.
-Será?
-Acho que sim.
-Cara, ele não tira o olho dos meus peitos.
-Querida, seus peitos são fenomenais, nem seu terapeuta deve tirar o olho deles.
-Minha terapeuta é mulher e você sabe disso, sua louca!
-Tá, mas você entendeu a semântica, né?
-Sim, sim, mas é que ele parece tão interessado...
-Em ser teu brother!
-É, né?
-É, flor, deixa quieto, que essas paradas tão rolando direto, são os ardis da pós-modernidade.
-Sempre ela...

Dica prática: se está conhecendo um moço, fique atenta à frequência com que ele cita outras mulheres no meio dos papos de vocês, porque isso, mesmo numa história com química sexual e intelectual interessantes, é sinal de que ele quer te comer e, ao mesmo tempo, ser teu brother. Se pra você isso é satisfatório, tanto melhor, mas, se você não sai bem nessa foto, não insista, porque essas coisas não costumam mudar.

Capítulo quarto: da confusão entre saudade e vício

-Menina, hoje me deu uma saudade do figura...
-Não é saudade, filha, é vício.
-Será?
-Óbvio, eu morro de saudade do meu maço de Marlboro.
-Falando nisso, hoje fazem três dias que eu não fumo.
-Mas você num foi numa festa ontem?
-Fui.
-Bebeu?
-Todas.
-E não fumou?
-Não.
-Nem varejo?
-Não.
-Nem traguinho amigo?
-Não.
-Tá explicado!
-O quê?
-A saudade do figura!
-Como?
-Natural, neguinha, você se privou de um vício, daí se lembrou de outro.
-Será?
-Claro, gata.
-Estranho isso, né?
-Estranho nada, a gente se acostuma com as pessoas, acontece. E acontece também de num belo dia você se olhar no espelho e pensar: “poxa, acho que de repente esse figura me vê como brother”.
-Foi meio isso mesmo que rolou.

Dica prática: se conseguiu vislumbrar que determinado moço te vê como brother e que, ainda assim, você meio que se acostumou com ele, pois ele é um querido e coisa e tal, aceite a situação, mude o foco e siga em frente numa boa, lembrando sempre que com homem é que nem com cigarro: as primeiras setenta e duas horas de abstinência são as piores. Depois a tendência é melhorar.

Afinal de contas, é prudente tentar enxergar o limite antes de se deparar de cara com ele.

Porque o mais importante é sermos brothers de nós mesmos.

Pra desenvolver a incrível habilidade de aceitar a vida do jeitinho que ela é: complicada e perfeitinha.

9 comentários:

gigi disse...

Como diz meu amigo e guru Luiz: "amigo é meu pau, que está perto do meu cu e não me come".

Brodagem no me gusta.

Fábio Ricardo disse...

dicas práticas e muito úteis. fico esperando pelo contrário desse aqui, um igual pra nós homens. garanto que as dicas vão mudar bastante.

Mariana Valle disse...

"Porque o mais importante é sermos brothers de nós mesmos."

Adorei!!

o que é semiótica? disse...

querida, essa foi sensacional, alias, até visualizei essa série audiovisual de dicas práticas femininas, quero assisti-lá logo! Seja na tv, no cine, ou no dvd...

M. disse...

amigo de mulher é cabelereiro.

é brodagem a gente quer ter com o moço da caipirinha pra ele fazer desconto.

Mauricio disse...

ahahahah...ótimo! Mas ..estou com o amigo da Gigi!auhahuahua

Mel disse...

É por isso que vivo me fodendo... droga!

Adoro esse blog!

Elga Arantes disse...

Moça, vc foi perfeita, nesse texto. Que delícia! Nunca imaginei que me divertiria lendo um 'manual de instruções'.
Aquela do vício, já acontecceu comigo. Mas precisei de mais de 72 horas para relaxar da abstinência. Foi bem difícil!!! - no caso do cigarro, claro.
Sou cheia dos brothers, mas tenho a manha ao reconhecê-los. Aliás, pra mim, quase todo mundo é um.
Show de bola!!!

Cris lima disse...

Poli, então isso pode ser um dos motivos que a maioria das minhas amigas estão solteiras!! hahahahh.
Temos que fazer uma festa tipo:"o que não serve pra mim, deve servir pra vc", todas as mulheres tem que levar um "amigo",de repente ele pode querer ser mais do que amigo para as nossas amigas.
O que vc acha?
Se nem assim eu desencalhar, ai só na próxima encarnação.rsrssr
bjus