quarta-feira, 12 de março de 2008

Cenografia à distância

-Há quanto tempo ele se mudou?
-Dois meses.
-E vocês chegaram a ter algo mais assim íntimo?
-Ficamos no estágio 1.
-Como é o estágio 1?
-Vai dizer que você não sabe?
-Querida, tô casada há vinte anos, o único estágio que ouço falar é o do meu filho...
-Filipinho tá fazendo estágio já?
-Casei grávida né, bonita, esqueceu? Meu filho é um homem feito, pagou jantar pra mim outro dia e tudo, quase chorei de emoção, mas conta, como é o estágio 1?
-Ah, muita conversa, simpatia, sintonia, essas coisas...
-Mas o olhar dele te queima?
-Acho que sim.
-Acha?
-Sim, acho, não sou mulher de tantas certezas.
-É, você tem razão, certo mesmo só as contas que vencem no dia 10, mas conta mais!
-Então, ele pegou meu telefone e a gente tem se falado umas três vezes por semana.
-Quem liga?
-Ele.
-O homem faz três interurbanos por semana sem nem ter beijado sua boca ainda?
-Isso mesmo.
-Geeeeeeeeeente! Sen-sa-cio-nal!
-Pois então, a coisa tá esquentando
-Já vi que alguém vai viajar em breve...
-Ele me diz cada coisa que me deixa num estado...
-Ai, que delícia.
-Teve um dia que tomei umas cervejas e começamos a ter uma conversa assim mais quente, sabe?
-Sei, sexo verbal.
-Exatamente.
-Delícia...
-Daí eu disse pra ele que estava toda molhada.
-E ele?
-Continuou me dando corda até eu ficar numa situação extrema, quase subindo ladrilho de tamanco!
-Ladrilho de tamanco?
-É, explodindo.
-E ele?
-Disse que também estava do mesmo jeito.
-Deus queira que ele não suba ladrilho de tamanco, porque aí poria tudo a perder...
-Não faz gracinha que é sério!
-Tá bem, mas fiquei imaginando o bofe de tamanco e confesso que não foi o melhor pensamento do dia.
-Quer deixar eu terminar de falar?
-Deixo, lindinha, claro!
-Ontem ele veio me dizer que não fica assustado com essas coisas que digo.
-Que ótimo, ponto pra ele! Homem assustado cansa.
-É, mas ele acha que o que eu digo no telefone não é verdade.
-Como assim?
-Ele diz que eu minto por estilo, que minha umidade é cenográfica, que eu fabulo para envaidecê-lo e que, por isso mesmo, ele gosta.
-Nossa! Umidade cenográfica é coisa fina!
-E ainda culminou com a seguinte frase: “como pode querer que a mulher vá viver sem mentir?”
-Adorei esse rapaz, ele arrasou!
-Mas ele não acredita em mim!
-Ele tá querendo te conhecer, amiga, daí diz essas coisas, pra te fazer pensar nele mais e mais. Coisa de homem, aproveita!
-Tá bem.
-Você tá acostumada a ter todas as respostas, né?
-É.
-Então deixa virem as perguntas difíceis, bonita, sem medo!

Ficou pensando nas perguntas escabrosas e nas respostas elaboradas que viriam pela frente. E só então percebeu que em breve comprará uma passagem pra longe de casa e pra dentro de si mesma, em busca de uma cenografia que, de tão bem encenada, pareça real.

E que, de tão real, pareça encenada.

5 comentários:

ALGUNS disse...

Que lindooooooooooooooooooooooooo!!!!!!

Amei o blog!!! Amei o último conto também!!! Final especial!!!

Luxxxxxxxxxxxxxxxxxxooooooooooooooooo!!!!!!!!

Vou te linkar.

Bjs, Maya.

Maurício disse...

ehehehe..muito bom .Poli! .Beijos,
Mau =)

floratomo... disse...

oi, poli! descobri agora, entrando no multiply, o teu blog... adoro sempre tudo o que escreve. vou lendo aos poucos os textos, é uma boa terapia literária, além das constatações de que a modernidade faz o mundo estar sempre descabelado... mas creio que foi sempre assim, de qualquer forma. beijos, daya.

Samantha disse...

mais um golzinho pra sua coleção poli!
esse negócio tá ficando realmente sério, né não?

bjs e até o próximo testíc...

Srta. Rosa disse...

É de verdade? Uhu, tô na torcida amore! Eu senti o mesmo, mas por um baby que mora perto mas tem só 23 aninhos, hahahah.

E tô quase subindo ladrilho de tamanco!

Bezzos,

http://senhoritarosa.wordpress.com

(meu texto não tá tão caliente mas pubilcaram ontem na www.papodehomem.com.br, ladie's room)

:*)